Nas últimas décadas, os nossos sistemas alimentares passaram por uma transformação considerada até agressiva. A engenharia deliberada dos alimentos e a modernidade do ambiente alimentar transformaram o que colocamos no prato. Essa mudança estrutural começou consolidando-se nos países de alta renda e, hoje, se expande rapidamente e sem freios nos países de renda média. O objetivo central dessa indústria não é nutrir, mas sim redefinir a nossa biologia para maximizar a palatabilidade e garantir o consumo desenfreado através do chamado efeito de êxtase (ou bliss point), gerado pelos alimentos ultraprocessados.
A indústria de alimentos muitas vezes busca chamar a atenção nas propagandas, pintando um cenário perfeito de saciedade. Mas isso, ao invés de ser positivo para o consumidor, acaba sendo constrangedor e frustrante no final.
Por trás daquela embalagem colorida ou do comercial vibrante, existe uma neurobiologia exata voltada para o consumo compulsivo. Estudos científicos comprovam que o consumo de alimentos ricos em gordura ou açúcar, mesmo em humanos saudáveis com peso normal, causa a liberação imediata de dopamina na via mesolímbica, que é o centro de recompensa e prazer do nosso cérebro.
Ao ativar essa via de forma artificial e hiperestimulada, a indústria cria um ciclo vicioso de desejo. Não se trata de falta de força de vontade do consumidor; trata-se de um produto desenhado quimicamente para que o seu cérebro não consiga dizer "chega".
Geralmente, a maioria dos produtos alimentícios anunciados com grande alarde na televisão e nas redes sociais é composta por alimentos processados e ultraprocessados totalmente não saudáveis. E a experiência de compra quase sempre se transforma em decepção.
Imagina você receber um hambúrguer muito menor do que parecia na propaganda, todo murcho, com o queijo quase invisível e com um gosto completamente diferente do que desejava? É ruim, né?
Isso acontece porque existem muitos truques envolvidos na fotografia de alimentos (food styling). Muitas propagandas não usam no anúncio o produto real que querem vender. Para deixar o alimento mais desejável nas fotos, vale tudo:
O refrigerante efervescente: Na maioria das propagandas, colocam substâncias químicas como pastilhas efervescentes no fundo do copo para parecer que a bebida tem muito mais gás, frescor e vida do que a realidade.
O mel de óleo de motor: Em comerciais de panquecas saborosas, eles jogam óleo de motor por cima da massa para dar uma aparência dourada e legal de mel. O mel real seria absorvido rapidamente pelo bolo, estragando a foto.
O chantilly de creme de barbear: Muitas vezes vemos uma sobremesa bonita e desejável coroada com chantilly, mas aquilo na verdade é creme de barbear, escolhido porque não derrete sob o calor das luzes do estúdio fotográfico.
O bolo de papelão: Vemos aquele bolo perfeito, alto e simétrico, mas essa perfeição é somente nas fotos. Ele foi sustentado internamente por palitos de dente, placas de papelão e até isopor para não desmoronar.
Outros truques absurdos: Eles usam cola branca no lugar de leite em comerciais de cereais para os grãos não afundarem; pincelam graxa de sapato na carne para simular marcas perfeitas de grelha; e até borrifam desodorante aerossol em frutas para dar aquele brilho de frescor artificial.
Quando o produto chega nas nossas mãos, a realidade cobra o preço: recebemos um alimento completamente diferente das nossas expectativas, menor, sem graça e artificial.
O que se vê muito também nas empresas alimentícias são alegações de saúde inadequadas e enganosas, principalmente no contexto do consumo excessivo de açúcar. O consumidor precisa aprender urgentemente a reconhecer essas fraudes cotidianas.
Em alimentos processados, o açúcar adicionado de forma oculta é um fator-chave não apenas para a obesidade e o diabetes tipo 2, mas também para uma série de outros problemas graves, como a esteatose hepática (gordura no fígado), o aumento de riscos cardiovasculares, cáries dentárias severas em crianças e processos inflamatórios crônicos no organismo.
E um dos principais motivos para esse consumo desenfreado de açúcar são as próprias propagandas, que apresentam o tal do "açúcar saudável" através de termos como "açúcar fit", "demerara natural" ou "xarope de néctar". Isso é pura lavagem de imagem da saúde (healthwashing).
Nas publicidades, sempre se envolve o lado bonito e aspiracional da vida. A imagem de produtos nocivos é diretamente associada a celebridades carismáticas e atletas de alta performance. Por causa dessa blindagem de marketing, a proporção de alegações enganosas sobre saúde só aumenta a cada ano. Essa prática de enganar os consumidores é vista em diversas situações do mercado, mas na área alimentícia ela se destaca de forma alarmante.
A influência na decisão de compra de um indivíduo é moldada por diversos fatores, principalmente o status e a identidade percebidos. Queremos consumir produtos que reflitam quem somos ou quem gostaríamos de ser: pessoas conscientes, modernas e ecologicamente corretas.
Só que muitas grandes empresas não têm sido transparentes com o público, principalmente com os consumidores que tentam fazer escolhas éticas. Existe uma quantidade imensa de rotulagem enganosa de produtos relacionados à sustentabilidade.
Muitas marcas utilizam o termo "eco-friendly", "sustentável", "consciente" ou "produção verde" de forma vazia, apenas para aumentar a percepção das vantagens gerais de seus produtos sem mudar nada na cadeia de produção real. Sendo assim, as empresas cobram preços premium e ganham acesso facilitado ao crescente e lucrativo mercado de bens sustentáveis. É uma maquiagem verde (greenwashing) que engana o bolso e a boa intenção do cidadão.
Diante desse cenário de manipulação neurológica, visual e ética, é urgente que autoridades em todo o mundo apliquem leis e regulamentações muito mais rigorosas contra o greenwashing e a publicidade abusiva de alimentos. O consumidor merece transparência real, tanto no rótulo quanto no prato.















