Se perguntassem a você qual é o seu refúgio no mundo, o que você responderia? Aos que pensaram "minha própria casa", a resposta é admirável, mas também percebo a necessidade gritante de relembrar que neste mundo vasto e (quase) infinito existem lugares inacreditáveis que estão à sua espera. A sua casa pode ser o mundo. A natureza. Os animais. As pessoas. Tudo aquilo que se move. Igual a você. A sua casa pode ser também seu teto imóvel, sua cama confortável, seu sofá aconchegante. Mas, antes de tudo, sua casa deve ser onde seu corpo está vibrando mais alto.

Um lugar que fez meu corpo alcançar uma nova e alta frequência foi Ilha Grande, em Angra dos Reis. A maior ilha do estado do Rio de Janeiro. Sem carros, sem outdoors, sem babilônia, sem estresse. Cento e um momentos vividos e memórias colecionadas em ligeiros 3 dias. E isso não é um diário de viagem. É um lembrete importante de que a vida acontece mesmo, lá fora, no desconhecido, no inesperado, no inimaginável.

Imagine pegar um barco e visualizar, em alguns minutos, as paisagens mais lindas que você pode notar no mundo. Agora, imagine sentir essa sensação em mais de 100 praias. É claro que em 3 dias, eu nunca conseguiria conhecer todas elas, mas o que conheci tomou o meu coração, principalmente porque na ilha, todo o deslocamento é feito a pé, de barco ou, no máximo, de bicicleta em alguns trechos. Nada de carros, buzinas ou ubers! Só você, o mar e o calor de pessoas incríveis que carregam uma mesma intenção: desacelerar.

A sensação de quem chega é de que ali há algo para descobrir, para renascer, para imaginar e compreender com mais profundidade. Depois, você nota que esse "algo" é sua conexão com o mundo, com a transformação interna e o autoconhecimento. Ali, de frente para o mar cristalino, em contato com estrelas do mar, plânctons, peixes de tantas espécies, percebi que se permitir é encontrar seu refúgio no mundo. Em diferentes lugares, com pessoas diversas, aprendendo novos hábitos, ensinando suas habilidades e desapegando de velhos pensamentos. É aqui que você vê a vida acontecendo.

Gruta do Acaiá, Praia de Lopes Mendes, Lagoa Verde, Praia de Grumixama e Lagoa Azul foram os lugares onde estive e as frequências que acessei. Mesmo buscando por toda a vida encontrar as melhores frases para descrever sensações humanas, ainda não consegui encontrar nenhuma palavra existente para demonstrar a completude de um espírito que vê a magia da natureza acontecendo frente a seus olhos.

Presenciar a água brilhando em tons azuis-turquesa neon tem o poder de mudar a química do nosso cérebro, porque ali você se dá conta de que a vida não pede permissão para existir. Ela existe por si só. Ela pode ser encontrada e admirada. Ou não. Ela poderia passar toda a eternidade ali, sem ninguém tendo-a visitado. Ela poderia brilhar sozinha, sem que ninguém estivesse vendo. E ainda assim, brilharia com toda sua força e potência. Esse pensamento é grande e foi ele que me atingiu no momento em que senti essas águas na minha pele.

Existe algo mais especial ainda nesta viagem: foi feita em família. E viajar com a família possui um caráter provocativo porque você nunca sabe o que vem em seguida, o que vai mudar ou como você vai voltar para um de seus refúgios: sua casa. Mas algo dentro de nós sempre muda e, no fundo, todos nós sentimos isso. Alguma peça interna se transforma quando somos colocados para viver em um novo mundo com as pessoas que cresceram conosco. E essa, além das paisagens indeléveis, foi a grande dádiva dessa viagem.

Há uma beleza impermeável que habita as relações humanas quando o respeito se torna sua base fundamental. Mas, para que isso aconteça, existem muitos momentos anteriores e, por vezes, desafiadores que nos fazem crescer. E podem demorar alguns anos ou décadas, mas se há vontade mútua de evolução, há renascimento na relação. Essa viagem à Ilha Grande, além de nos ter colocado diante de grandiosas maravilhas naturais, também teve a conexão esperada do desenvolvimento paciente. Assim como a natureza, as trocas entre as pessoas acontecem em ordem caótica para que então, no momento oportuno e necessário, sua verdadeira beleza seja revelada.

Pela caminhada, entendemos que a vida só existe através das nossas escolhas e, como popularizado por Charlie Brown Jr. em Lutar Pelo Que é Meu, a cada escolha, fazemos uma renúncia. No entanto, há renúncias que, se uma vez fizeram sentido, são as que nos libertam de viver o resto de nossas vidas em padrões falidos, que hoje já não cabem mais na grandeza do nosso ser.

O seu refúgio precisa ser inato: estar dentro de você para onde quer que você vá. Não sendo preso a qualquer objeto material, deve morar no fluxo da vida, na natureza, naquilo que nunca está parado. Um refúgio é uma proteção, não uma prisão. Quando você substitui um convite para ver o mundo por se manter paralisado, fazendo o mesmo que já foi feito, você transfere seu poder de escolha para o habitual e renuncia milhões de possibilidades. Essas, que podem fazer conhecer versões mais brilhantes e poderosas de si mesmo.

O que devemos entender é que toda nossa vida é desenhada por nós mesmos. Por acertos, erros, conquistas, derrotas. Essa é sua responsabilidade: ir ao encontro do seu refúgio.