Certo dia, tomada por uma ociosidade que eu poderia dizer simplesmente que era curiosidade, pesquisei na internet atividades que as pessoas gostam de fazer. Sem preocupação com dados e fontes confiáveis, cheguei a um site que dizia que gostamos de praticar atividades que proporcionam relaxamento, prazer e conexão social.

É fácil identificar quais atividades nos dão pleno relaxamento, prazer e conexão social. Assistir a um filme ou uma série, encontrar os amigos, frequentar aquele bar ou restaurante favorito e praticar aquele hobby querido são ocupações que nos fazem desligar da correria do dia a dia e muitas vezes voltar nosso olhar para as coisas mais simples da vida.

Porém existe uma atividade que eu acredito que seja unânime e que de cada cem pessoas que perguntarmos o que mais gostam de fazer, cem pessoas responderão exatamente essa: viajar. Não poderia concordar mais, pois é aquele momento que você reserva do seu ano - seja nas férias ou em um feriado prolongado - para deixar de pensar no trabalho ou na rotina.

Existe um termo para quem ama viajar: Wanderlust. A origem dessa palavra, que em uma remota época virou febre de tatuagens e peças de decoração, é alemã e significa um desejo intenso de explorar o mundo. Eu me identifico! Quem mais?

Eu fiquei por muito tempo refletindo sobre o porquê as pessoas gostam tanto de viajar. Eu não fiz um estudo acadêmico com amostras reais para chegar a uma conclusão precisa sobre isso, mas eu acredito que estamos inseridos em uma rotina tão maçante que vivemos planejando um momento de respiro. E esse respiro são as férias e esses dias de descanso precisam ser especiais. E para serem incríveis, merecem uma viagem.

Essa jornada começa a ser planejada, muitas vezes, meses antes. Esse planejamento envolve a escolha do lugar, o transporte, as companhias que farão parte desse momento, a acomodação, as refeições e, claro, os passeios. O itinerário, seja sozinho ou em família, sendo no seu país de origem ou em um país totalmente novo, recai muitas vezes naquele pensamento que viajar é descobrir o mundo. Será mesmo?

Viajar é descobrir o quanto não sabemos

Na minha humilde opinião, eu acho que, na verdade, viajar é de fato descobrirmos o quanto não sabemos nada sobre o mundo. Nos disponibilizarmos a fazer um passeio, diz muito mais sobre a gente. E eu vou explicar por que eu acho isso.

A nossa casa é sagrada, é onde dominamos o espaço dela e é onde nossa rotina está determinada, até mesmo aos finais de semana. A partir do momento que nos programamos a explorar um outro lugar, nos colocamos automaticamente em uma posição de humildade diante do outro a ponto de perceber que a nossa forma de viver não é a única possível.

Colocar-se disponível para explorar qualquer outro lugar que não seja o que você está habituado, treina a sua adaptação emocional. Um ambiente novo estimula a chamada flexibilidade cognitiva, ou seja, a capacidade mental que temos de adaptar o pensamento e o comportamento diante de novas informações, mudanças ou situações imprevistas. Em uma viagem, idiomas, comidas e costumes diferentes podem ensinar o cérebro a lidar com o inesperado e isso vai preparar para situações do cotidiano.

Estando em postura de humildade em uma viagem, você está em vulnerabilidade cultural. A não ser que você viaje dentro do seu próprio país onde a variação linguística ocorre, porém a comunicação ainda é entendida, em outro país não há domínio completo da língua falada. Dessa forma, a compreensão dos códigos sociais fica limitada, o que também restringe o entendimento dos espaços e das relações.

Quando a viagem vira uma lição de vida

No caso de quem tem filhos, eu acredito que lições profundas são passadas do momento em que a família sai de casa para uma aventura até o seu retorno.

Todas as viagens que eu fiz com a minha família, um ou outro percalço, tivemos que resolver. Somos extremamente organizados e planejados, mas uma coisa ou outra fogem do nosso controle e é nesses momentos que vemos a união e a forma como cada um lida com a situação. É interessante observar o comportamento das crianças ao longo dos anos e o amadurecimento diante de situações adversas.

Os filhos veem realmente quem os pais são durante as viagens, pois mesmo com tudo planejado, os itinerários podem ser alterados e imprevistos acontecem. A sensação de controle, nesses momentos, se esvai e a criança pode ver que os pais podem errar, se perder e recalcular o dia planejado. Às vezes, um passeio muito esperado não acontece e é preciso lidar com a frustração, digerir a decepção e ajustar as expectativas aprimorando a sua inteligência emocional. Inclusive, isso pode ser feito com a participação delas. A família vira um belo time!

Essas situações aproximam e criam momentos compartilhados com conexão, pois viram histórias para serem relembradas ao longo da vida fortalecendo os vínculos. Nunca são os momentos rotineiros que são lembrados e sim os que aproximaram em momentos em que todos se uniram em um desafio coletivo. Quem não tem uma história em família que começa com: “E aquela vez, em tal lugar que aconteceu isso?”

Acho que é por isso que procuramos sempre viajar. Além de descansar e escaparmos um pouco da nossa própria rotina, temos a chance de lembrar que o mundo é maior que a nossa própria rua.