O país está saturado da política que diz que faz, mas, na realidade, os governos caem sucessivamente, havendo necessidade de convocar eleições antecipadas, que são os contribuintes a pagar. No fundo, a política não passa de um jogo que só ganha quem o souber jogar. A questão essencial são as consequências que estes jogos partidários trazem às pessoas, sentidas todos os dias por quem trabalha, paga rendas e impostos cada vez mais incomportáveis, espera — e desespera — nas urgências dos hospitais e vê os seus direitos encolherem em virtude de decisões que são tomadas nos gabinetes, em Lisboa, à distância, sem o mínimo conhecimento do que se passa no terreno e com as pessoas que lá residem.

Ora, 2025 começou com mais uma polémica. O então Primeiro-Ministro tanto apelou para que o deixassem trabalhar que, meia dúzia de meses depois de estar no cargo, o verniz estalou. Uma nova polémica instalou-se no país, já de si instável. O novo escândalo mediático envolveu a empresa familiar do então Primeiro-Ministro, Spinumviva. Em causa estavam alegados conflitos de interesses por parte de Luís Montenegro (Primeiro-Ministro de Portugal), por a dita empresa de consultoria, propriedade da família do mesmo, ter mantido contratos com o casino Solverde, que atua sob concessão do Estado português.

A bolha de lustro rebentou e a Assembleia da República, bem como o país, exigiram respostas ao Primeiro-Ministro. O que não evitou que o país, em menos de um ano, fosse novamente às urnas, uma vez que o Governo caiu após a rejeição da moção de confiança, em março de 2025.

Apesar de toda a roda viva que o caso gerou, Luís Montenegro voltaria a ser reeleito para o cargo e o caso contra a sua empresa viria a ser arquivado, por não se constatar a prática de crime, em dezembro de 2025. No entanto, não foi por isso que o seu governo e restante comitiva se viram envolvidos em menos polémicas.

Apressos e gostos políticos à parte, este governo (parte 2.0) tem-se mostrado com uma grande falta de noção e de insensibilidade para com quem é governado, que me faz pensar mesmo se estas pessoas sabem realmente o que estão a fazer. Mais, que país governam…

Começamos então em dezembro de 2025 com a greve geral, convocada pelas centrais sindicais UGT (União Geral de Trabalhadores) e CGTP-IN (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses - Intersindical Nacional). Em causa estava o novo pacote laboral que o governo queria colocar em prática, que depois, devido à tamanha contestação, acabou por ficar de fora do Orçamento de Estado de 2026.

Ainda assim, face à adesão, veio o governo dizer que esta greve não se coadunava com as razões certas, mas sim por questões políticas. A verdade era só uma: aquilo que o governo propôs no seu pacote laboral limitava os direitos dos trabalhadores, colocando-os em situação de precariedade. No caso dos jovens, conseguir um trabalho neste país é uma anedota e querem que os contratos a termo e a prazo aumentem? Segundo a Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, os trabalhadores não procuram trabalho a termo. Desde quando? Quem quer começar uma vida precisa de um trabalho minimamente estável e com garantias de tal. Ou pura e simplesmente vai viver da incerteza? Não me parece.

Ainda relacionado com o pacote laboral, houve, para mim, duas medidas que não fazem sentido. A primeira, eliminar a falta por luto gestacional e a segunda, limitar a dispensa para amamentação.

Para umas coisas somos um povo tão compreensível, para outras somos uns autênticos abutres, que convivem bem com a desgraça alheia. Acham mesmo que uns pais que perdem um bebé, nas circunstâncias que forem, estão preparados para voltar à “vida normal” depois de perderem um filho? Já pararam para pensar quais serão as condições emocionais e físicas de uma mãe que perdeu o seu bebé? Para não falar no pai… Uma vez disseram-me que o pai só ganha consciência que é pai quando o filho nasce. Agora pensem, qual é o estado psicológico do pai quando sabe que nunca irá pegar o seu bebé ao colo ou que nunca o irá ver crescer… Há necessidade de chafurdar na dor dos outros, para que a empresa não perca rendimento?

Depois, limitar a dispensa por amamentação. Segundo a ministra, é impensável uma criança de dois ou mais anos “mamar”. Senhora ministra, não é impensável, é o que é. Se a mãe tem leite, por que razão haveria de o desperdiçar em prol do “leite de lata”? O leite materno tem mais benefícios que o “leite de compra”, ainda para mais para estas crianças que não têm defesas. Ah, mas há mães que abusam. E quem é que não abusa neste país? Agora, vai fazer os bebés e as mães pagarem por causa de alguns infratores?

Outra polémica que deu e tem dado pano para mangas é a especulação imobiliária no país. Resumindo, Portugal não tem casas e as que tem são incomportáveis para o comum português que, no mínimo, ganha o ordenado mínimo de 920 euros (brutos) e, no máximo, anda pelo ordenado médio de 1.615 euros (brutos), isto no terceiro trimestre de 2025, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).

A polémica a sério vem agora, quando o governo definiu que uma renda moderada para Portugal é de 2.300 euros! Com isto, o objetivo seria aumentar a oferta, nas zonas mais povoadas, claro está. Mas há aqui alguma coisa de errado que não está certa… Face aos ordenados, como é que podem estabelecer uma renda moderada nos 2.300 euros, quando os ordenados andam entre os 900 e os 1.600 euros? Atenção que estes valores são brutos, com impostos e descontos o ordenado desce… E esta renda moderada está estipulada para o país todo…

É certo que cada um faz o preço que entende ao que tem, mas também temos de ter a noção de que muitos dos preços que são praticados pelo país fora não têm nexo. Depois, questionado sobre se conseguiria pagar uma casa nestes moldes, o Sr. Primeiro-Ministro ficou aos papéis a olhar para a jornalista. Claro que ficou, porque é óbvio que não conseguiria!

Na saúde não vale a pena falar, porque das duas uma, ou a ministra não quer ver o que tem à frente dos olhos ou é munida de muita arrogância. Pessoas morrem nas urgências à espera de atendimento, bebés nascem em ambulâncias, em casa, às portas dos hospitais. Mais vale dizerem logo que os bombeiros passaram a ser os médicos 2.0, isto se tiverem sorte de haver ambulâncias e macas para socorrer as pessoas.

Não temos dinheiro, não temos casas, a saúde está em crise e a educação também é uma coisa questionável. O Ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, esteve envolvido numa polémica por um comentário infeliz da sua parte. Disse que a degradação das muitas residências universitárias pelo país fora se devia aos alunos bolseiros. Ainda se veio desculpar, mas não pegou. Ainda colocou em causa o trabalho jornalístico, quando o erro foi inteiramente dele.

Face a tanta polémica, começa a parecer que este governo “as pensa de noite para as dizer de dia”. Além de que há muita falta de noção de aspetos elementares e uma certa arrogância à mistura.

Em relação a este tópico da degradação das residências, tenho uma pergunta retórica: será que são os alunos que as degradam ou há, efetivamente, falta de investimento nos serviços públicos? Quem diz residências estudantis diz o resto… Se as pessoas pagam impostos, porque razão não haveriam de usar os serviços públicos? Se os usam é porque não têm outra opção. Por outras palavras, não têm meios para frequentar os serviços privados. Isso não é culpa das pessoas.

Por último, mas de certo que não será a última polémica deste governo e no país, 2026 chegou e as tempestades vieram com ele. Registaram-se ocorrências por todo o país, umas a necessitar de mais atenção do que outras. Houve locais fustigados pelas chuvas intensas e ventos fortes, tendo resultado em mortes, cortes de energia, rede, água, pessoas que perderam tudo e bens destruídos.

Perante isto, mais uma vez, o país teve a infeliz certeza de que os nossos governantes não têm noção do país que governam. Demorou-se a declarar o estado de calamidade, não havia protocolos a seguir, não havia capacidade para dar a cara no momento em que as pessoas mais precisavam. Apesar de sabermos que não vão ser os ministros a limpar as estradas, recolocar os telhados das casas, restabelecer a energia, a rede e a água às povoações, acho que era o mínimo que os governantes deviam aos eleitores. Não é só receber os votos no dia das eleições. Parece que não aprendemos nada com os acontecimentos passados…

Todos estes episódios aqui descritos estão longe de ser casos isolados ou meras polémicas, revelam um padrão preocupante: um país que é governado à distância, por governantes que parecem desconhecer a realidade concreta de quem trabalha, estuda, paga rendas incomportáveis, recorre a um SNS (Serviço Nacional de Saúde) em rutura ou vê a sua vida virada do avesso sempre que surge uma crise.

Portugal é governado como se fosse um exercício teórico, feito de números, discursos e justificações, quando, na verdade, se governa a vida das pessoas. Enquanto esta desconexão persistir, continuarão a mudar os governos, as cores partidárias e os protagonistas, mas os problemas, esses, permanecerão. O problema do país não é apenas quem o governa, mas a distância abismal entre o poder e as pessoas.