A década de 2020 não está a ser a década de ouro que esperávamos que fosse. Muita coisa tem acontecido desde então. Guerras sem fim, a extrema direita a ganhar cada vez mais terreno sobre a democracia e muitas polémicas, que giram em torno da política do nosso país. A par de tudo isto, tem vindo a crescer uma forte descredibilização face ao setor político, que por sua vez, mina a confiança que os eleitores têm nos meios e nas pessoas que os representam.
As pessoas estão cansadas, senão fartas, daquilo a que os políticos as habituaram, que é um programa eleitoral cheio de medidas e boa vontade, durante a campanha - onde prometem que é desta que o país vai sair de cepa torta e vai começar a caminhar lado a lado com os restantes países da Europa. Mas como? Quando os governos já nem se dão ao trabalho de levar as legislaturas até ao fim, porque literalmente, andam a cair que nem “tordos”. Portugal em menos de um ano foi a eleições duas vezes! Assim, não percebo como é que é suposto o país atingir os “píncaros” da produtividade, elevados recordes na economia e competir com os “grandes”, se já nem as legislaturas do governo conseguimos levar até ao fim.
Querendo-se ou não, quem paga as favas é a democracia. Não nos deixemos enganar, no Portugal de Salazar também havia corrupção, com a diferença de que esta era abafada pelo Estado. Agora, pelo contrário, sabe-se que há corrupção, não só no Estado, mas noutras instituições. Porque a democracia permite que o cidadão tenha acesso à informação, por mais escabrosa que seja. Além disso, a democracia permite ao público ter pensamento crítico sobre o que está à sua volta, assim como lhe permite escolher de acordo com os seus ideais.
O problema não está e nunca esteve na democracia - ela por enquanto é a nossa tábua de salvação - o problema está na política. Como disse, o povo está farto de falsas promessas de que a vida vai melhorar com X ou Y. Não muda, no pior dos casos fica igual ou anda para trás. A verdade é só uma, os líderes portugueses não projetam o futuro do país além dos quatro anos de legislatura (isto é, quando a conseguem levar até ao fim).
Se bem se recordam, o último governo do Partido Socialista (PS), gerido por António Costa, caiu por questões um tanto duvidosas, depois de dois dos seus ministros terem sido alvo de buscas pelo Ministério Público. Tanta busca foi feita, que acabou por ficar tudo em “águas de bacalhau” e o nosso antigo Primeiro-Ministro é hoje Presidente do Conselho Europeu.
Isto tem-se vindo a tornar muito rotineiro na vida política portuguesa. Os governos caem por questões que o justifiquem ou não, mas nunca são apuradas as responsabilidades. Isto dá uma certa ideia de que, faça-se o que se fizer, os políticos vivem numa tal bolha de impunidade que nada lhes toca, porque nada lhes acontece. Não há nenhum tipo de consequência para a prática de X ou Y. Pergunto, como é que o eleitor pode levar os políticos e a justiça a sério? Não pode.
Sabemos que os tribunais estão atulhados de casos, mas a não responsabilização e a atuação leviana da justiça em diversos casos não impedem que o crime volte a acontecer. Pelo contrário, dão ainda mais “vontade” ao criminoso de infringir a lei, porque sabe que não lhe acontecerá nada. Mesmo que aconteça, sai após cumprir metade da pena, em muitos casos, por bom comportamento. Sei lá o que isso for.
Isto para dizer que o facto de se ter visto envolvido num caso de polícia não impediu António Costa de ascender a um “tacho maior”. Porque, sim, a política (portuguesa) no seu essencial, mais não passa de “tachos” e “tachinhos”, que alguns têm a sorte de conseguir, mesmo que não tenham competências para tal.
Ora, sem Governo, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, à época foi obrigado a convocar novas eleições legislativas. Assim, em abril de 2024, o país mudou de governo, assim como de fação política.
Mesmo com “uma nova cor” no governo, as polémicas não deixaram de existir. Não tardaria muito a que viesse mais uma para criar mais instabilidade no que já está há muito tempo pela hora da morte… Ou melhor, a cor não é nova, há 50 e tal anos que o poder político em Portugal varia entre os mesmos de sempre… Partido Socialista (PS) ou Partido Social Democrata (PSD). Na essência da coisa, a cor do partido varia de quatro em quatro anos, mas as polémicas e os escândalos continuam, com caras diferentes.
Ora, a Assembleia da República é composta por 10 partidos políticos, das mais variadas fações políticas, bem como ideais. Como também já sabemos, o poder político em Portugal desde o 25 d’Abril passa de mão em mão pelo PS e PSD, assim como sabemos que, apesar de resolverem umas coisas aqui e ali, fica sempre algo por fazer.
Algo macarrónico que acontece no país é um depositar de culpas incessante entre os principais partidos políticos, PS e PSD, ou enxovalhar o partido político anterior com mais culpas. A meu ver, enquanto os políticos continuarem a atuar como criancinhas birrentas, o país e as pessoas é que vão sair a perder.
Dá-me a sensação de que o modelo político está estagnado e ao mesmo tempo desgastado. Estagnado, porque são sempre os mesmos no poder, que ao fim e ao cabo, tapam buracos e agem como se as pessoas que governam fossem números, não pessoas que têm problemas que necessitam ser resolvidos. Desgastado, porque são sempre as mesmas queixinhas do costume, mas não melhoram nem agem para que, efetivamente, o problema deixe de existir. Lá está, a máxima do tapa-buracos.
Por consequência, verifica-se uma efetiva radicalização nas votações, nomeadamente, no partido Chega. O que não abona muito a favor da causa da democracia, porque o Chega é, neste momento, o seu maior opositor. Não que traga para cima da mesa medidas concretas para a resolução dos problemas das pessoas e do país. Pelo contrário, traz ruído, insultos e sucessivas candidaturas aos mais altos cargos do país, mas que felizmente, ainda não ganhou. Portugal ainda sabe de que lado deve estar. Do lado da democracia.
A democracia não se desgasta por sabermos o que se passa ao nosso redor. Desgasta-se com a repetição dos mesmos erros, dia após dia. Governação após governação. Deteriora-se também com a ausência de responsabilidades e com a falta de consequências para com os infratores. Assim, cresce a sensação de que o poder político muda de mãos, mas nunca amadurece na sua essência.
Os governos caem, as explicações ficam por dar e a culpa morre sempre solteira. No fim das contas, não são os partidos que perdem, mas sim as pessoas, que deixam de confiar no sistema e se sentem revoltadas.
A democracia é e será sempre a nossa tábua de salvação. Nunca foi ela o problema, mas talvez a forma leviana como tem vindo a ser exercida, sem qualquer tipo de regras… De momento, os políticos preocupam-se em ensaiar os discursos para as televisões, para os comícios e para as campanhas, mais do que em resolver os problemas fracturantes do país. A questão é que o povo está farto de ser iludido com meias cantigas e os tais discursos bem ensaiados. Quer apuramento de responsabilidades, bem como consequências para os infratores, porque se o povo infringir a lei, também não é poupado. Então, porque é que os políticos são? Acima de tudo, o povo português quer ser governado com competência e seriedade.















