Lá se vão os tempos depois da primeira república. As subsequentes repúblicas instauraram-se com eleições fraudulentas e recurso às armas para se manter no poder. O poder viciou os libertadores ao ponto de que não tiveram tempo de educar o povo a uma democracia plena e sempre dirigiram os destinos do país com recurso a fraudes e vantagens do poder militar, intimidando qualquer tentativa de revolução ou golpe de Estado.

Aqui as eleições só servem para lavar dinheiro e amadurecer a ditadura. Os temores pela guerra civil do passado fizeram com que este povo perdesse o discernimento sobre o que é bom ou mau, passando a viver em conformidade com o que os libertadores lhes permitem contemplar e viver.

Faz tempo que se grita pelo mundo fora: afinal, o que se passa com o povo de Moçambique, que hipotecou suas liberdades fundamentais e aderiu a um contrato social eivado de armadilhas e sem qualquer possível retorno?

A cumplicidade deste povo para com os desmandos dos governantes no contexto do contrato social faz com que estes continuem a desfilar sua classe por cima do povo que sofre com a pobreza e fome constantes. As assimetrias de desenvolvimento assombram este país e seu povo.

A sociedade civil, imprensa e os corredores de opinião pública, com o tempo, desenharam uma narrativa assombrosa segundo a qual, a cada pleito eleitoral, os libertadores nunca entregam a presidência e limitam-se a distribuir assentos na assembleia como forma de confortar os supostos perdedores para que estes não se rebelem contra o sistema, e assim é até então.

Esta narrativa vem se consumando com o passar do tempo: estes não vão entregar o poder. A oposição deve conformar-se com os assentos que foram dados na assembleia. Aqui o valor da conquista pelo trabalho deixou de ser uma realidade; tudo o que a oposição tem é porque os libertadores ofereceram como prémio de consolo pela tentativa de chegar ao poder.

E, com o passar do tempo, a própria oposição habituou-se a esta posição de se consolar com as migalhas deixadas pelos libertadores, também porque nunca foi sua pretensão chegar ao poder, senão garantir a saciedade umbilical dos trocados que recebem mensalmente com o segundo lugar de oposição.

Está a ser difícil que os partidos sérios da oposição revertam as correntes da máquina ditatorial montada pelos libertadores, com razão de ser, os tribunais, os órgãos eleitorais, o comando militar e a polícia estão com eles nessa luta contra o povo e em manter-se vitaliciamente no poder.

Um dia as correntes que lideram esta ditadura vão falhar e aí o povo cobrará a fatura, pois não há mal que perdure para sempre. Os libertadores vão pagar amargamente por nunca terem educado o povo à democracia e respeito às instituições no segmento da separação de poderes.

Os libertadores enfraqueceram os tentáculos da democracia e criaram revoltadores e revolucionários que um dia irão lhes sepultar. Conduziram o país com base na fraude e intimidações, suspenderam as liberdades individuais, suprimiram a opinião pública, criaram uma selva de desmandos. A liberdade de expressão e de informação tornaram-se escassas e a inverdade tornou-se no cotidiano do povo.

É este Moçambique que se quer? Um povo repleto de gente que não pode falar, não pode criticar e nem opinar. Qualquer opinião contrária é vista como antissistema. Todos devemos pensar e falar da mesma forma e concordar com tudo que o sistema quer. Isto chama-se democracia mesmo?

Haja paz para este povo que ainda vive na pré-história por conta da trágica governação dos libertadores.

Os perigos de um poder forjado com base em fraudes e uso de armas, força policial letal e militar. Hoje as manifestações pós-eleitorais em Moçambique, contestando o presidente indicado pelo Conselho Constitucional e não pelo povo, como se diz na praça, levaram o país a uma grave crise generalizada que se arrasta por mais de três meses de manifestações, que já geram mais de 924 mortos resultantes do uso do poder de fogo por parte da polícia, que dia após dia vem ceifando vidas em nome da legitimidade de um governo estranho, pois o povo desconhece o presidente indicado pela CC em comunhão com a CNE.

Hoje vive-se um clima de instabilidade jamais visto em Moçambique e sem precedentes. O repúdio popular à mega fraude eleitoral transformou o país num local de alto risco e perigo diário, onde sair à rua tornou-se uma incerteza de regressar a casa. A cada barricada e confronto com a polícia sempre resultam mortes de pessoas ligadas ou não aos conflitos, desde que estejam na rua, na hora imprópria e no lugar errado para apanhar uma bala perdida.

O país deixou de ser uma referência de coisas boas, como sempre foi, para ser adjetivado como lugar perigoso para viver.