Em Lisboa, há uma zona que foi encarada como local de edificação de uma “Cidade do Saber”, celebratória do conhecimento, concebida pelo arquitecto Porfírio Pardal Monteiro (1934-1961) e inspirada na Città Universitaria de Roma (1932-35) desenhada por Marcello Piacentini (1881-1960). É a projectada Cidade Universitária.
No topo da Alameda da Universidade, núcleo central da “Cidade do Saber”, celebração do conhecimento, concebida pelo arquitecto Porfírio Pardal Monteiro (1934-1961), inspirada na Città Universitaria (1932-35) de Roma desenhada por Marcello Piacentini (1881-1960), ergue-se um tríptico simbólico da “enciclopédia de saberes” do tempo: a Reitoria, ladeada pelas Faculdades de Letras (à direita de quem sobe) e de Direito (à esquerda de quem sobe).
Trata-se de uma coreografia das instituições com a reitoria ladeada pelos seus braços direito e esquerdo, cartografando o conhecimento humanista, esboçando um abraço de acolhimento ao visitante: a museologia da cultura nacional em diálogo com a ocidental e o roteiro das normas que a disciplinam, em geral acompanhadas de citações em legenda nos idiomas originais (acádico, hebraico, grego, latim e português), esboçando a genealogia da legalidade.
O conjunto arquitectónico foi concebido integrando outras artes, como a escultura, pintura, azulejaria e vitral, de acordo com o ideal alemão de Gesamtkunstwerk (obra de arte total), visando criar um todo coeso e monumental: contou com o trabalho do escultor Leopoldo de Almeida, do pintor Lino António e do ceramista Jorge Barradas, sendo as gravuras incisas na fachada da faculdade da autoria de Almada Negreiros. O programa iconográfico celebrava o conhecimento e glorificava a Universidade de Lisboa, com temática épica e patriótica, enfatizando a grandeza das construções e o poder do Estado sob a ideia de uma "arte nacional".
Circunscreverei a observação apenas à entrada da Faculdade de Letras de Lisboa, deixando para outra altura outros aspectos do mesmo edifício e do da Faculdade de Direito em frente.
Na entrada da Faculdade de Letras, Almada oferece-nos uma celebração imensa da literatura, em especial, e da cultura, em geral, com um centro nuclear: o painel Vasco da Gama e Tétis observando a máquina do mundo, por Almada Negreiros (1961), evocando o episódio camoniano da épica (Os Lusíadas, 1572), para onde conflui longa linhagem estética e filosófica. O episódio funde amor e conhecimento num clímax conjunto. O Tratado da sphera, de Pedro Nunes (1537), terá sido a fonte astronómica principal de Camões, que prefere as notas daquele às de Sacrobosco, sinalizando a sua actualização científica.
Mas esse painel é apenas a ponte entre os dois lados de um portal do tempo composto por vinte “Figuras e alegorias do pensamento e da literatura universal e portuguesa” (1961) que constituem pontos luminosos na trajectória da cultura ocidental.
À esquerda de quem entra, os mitos reúnem as raízes cristã (expulsão do Paraíso, Bíblia dos 70, século III), pagã (Prometeu Agrilhoado, 525 a.C. - 456 d.C., de Ésquilo) e épica (Poseidon e Ulisses, da Odisseia, 800 a.C., de Homero; Palinuro, timoneiro do navio de Eneias, da Eneida, 71 a.C.-17 d.C., de Virgílio).
Ao lado, na parede frontal à esquerda, outras quatro representações fazem-nos oscilar no mundo ocidental entre Portugal, Itália e Espanha, relacionando as culturas peninsulares ibérica e itálica: Santo António de Lisboa (1195-1231), Dante Alighieri (1265-1321) e A Divina Comédia (1308-1321), Todo-o-Mundo e Ninguém (Auto da Lusitânia, 1532) de Gil Vicente e D. Quixote de la Mancha e Sancho Pança de Miguel de Cervantes (D. Quixote de la Mancha, 1605-1615).
Ao centro, misto de ponte e de altar, como a trave de um H (da Humanidade?), lugar de convergência do conhecimento e do amor, do masculino e do feminino, do homem e da deusa.
Ao lado, ainda nessa parede, reúnem-se mais quatro imagens atravessando o cânone europeu: a Torre de Montaigne (Ensaios, 1571), o Príncipe Arichandono da Peregrinação (1614), de Fernão Mendes Pinto, o Hamlet (1603), de William Shakespeare, e o Fausto (1808), de J. W. Goethe.
Na parede à direita, são seis as representações folheando autores de referência: Fiódor Dostoiévski (o “cavaleiro caído” Raskolnikov de Crime e Castigo, 1866), Alexandre Herculano (Hermengarda e Eurico de Eurico, o Presbítero, 1844), Almeida Garrett (Frei Dinis e Joaninha das Viagens na minha Terra, 1846), Antero de Quental (“Soneto à Virgem”, 1875), Eça de Queirós (Fradique Mendes, com a sua Correspondência, 1900, e Eça de Queirós) e Fernando Pessoa (os heterónimos e “O Menino de sua Mãe”, 1926).
Este pórtico, autêntica antecâmara, limiar entre presente e memória, real e imaginário, está limitado por uma porta para o interior e por quatro colunas do lado de fora, insinuando-se como perspectógrafo, máquina fazendo convergir o conhecimento universal (dos quatro ventos, pontos cardeais, elementos… na entrada) nesse interior para que nos dirige e de onde regressaremos transformados pelo amor do conhecimento… um prisma de (de)composição da luz da heterogeneidade difusa da informação (exterior) na diversidade disciplinada do conhecimento ministrado pela academia (interior).
A ponte da Máquina do Mundo, hífen na inicial da Humanidade, está suspensa entre dois limiares: uma janela (acima) e uma porta (abaixo), favorecendo o acolhimento da academia e a perscrutação do mundo. Portal, pois, de um templo do conhecimento em que se entra numa iniciação que nos transformará…
Quando entramos, atravessamos um átrio iluminado através de grandes portas laterais; alinham-se colunas com bustos em bronze de figuras proeminentes da cultura e academia portuguesa, nomeadamente de professores que marcaram a instituição (como, p. ex., Teófilo Braga (1843-1929), Adolfo Coelho (1847-1919), José Leite de Vasconcelos (1858-1941), Manuel Oliveira Ramos (1862-1931), David Lopes (1867-1942)). É a memória da “casa” que nos envolve enquanto penetramos nesse espaço.
Ao fundo desse Átrio Nobre, subindo as escadas conducentes ao Anfiteatro I, está o grande painel cerâmico Elogio do Conhecimento (1957), de Jorge Barradas, produzido na Fábrica Viúva Lamego. Trata-se de uma alegoria celebratória da transmissão do saber e do humanismo que inscreve no seu centro uma figura feminina simbolizando a Sabedoria ou a Universidade, rodeada por figuras das diferentes áreas das Letras e das Artes.
Eis-nos prontos para receber a lição que o anfiteatro nos oferece… entremos!















