Então, eis que retorna o nosso analista do acaso, o Jan van Bat, aquele que deveras comenta as comparações holandesas, portuguesas e brasileiras mas, esporadicamente, até italianas. Nestes anos de ditas esquerdas, direitas e centros, situação e oposição na verdade, porque as escolhas são voluntárias e não por imposição ditatorial como outrora já fora, tudo anda torto, inclusive as ditas maiorias. E este é um fato curioso: as maiorias elegem, ditam novas regras ou legislaturas que depois se transformam em defesas de minorias. Há aí alguma piada que os supostos esclarecidos deixam às sombras... Como minorias podem decidir algo, numa democracia, que em suma é a escolha da maioria? É suposto ser outra conversa da treta! Naquele famoso teatro, onde os palhaços estarão na plateia...

O dublador-tradutor supõe incriminar o discursante que, por sua vez e com os seus atos, mostra o contrário do que disse o candidato a ventríloquo. E a metade menos um, daquela minoria, acredita ser tudo verdade o que o analfabeto idiomático traduz. Ou supostamente quis traduzir. Por outro lado, a maioria minoritária, com fraqueza mental e física, já perdeu a paciência que alguma vez teve, mas cansou de a manter. Não vale a pena. Disseram uma vez que, registada está e já tinham alertado em tempo. Agora tarde, regozija-se a formiga no aconchego da sua segurança pré-preparada, para no dia da cigarra auscultar na sua porta essa mesma vizinha a cantarolar o novo fado, agora sertanejo. Chorando as mesmas lamúrias recorrentes, de quatro em cinco anos, dependendo do regime.

Se fosse futebol, usariam aqueles termos fáceis e compreensíveis da banha da cobra, para depois e mais tarde mudarem o discurso juridiquês, que só um gestor-administrador na defensiva já conhece. A interpretação a bel prazer, do que a olhos vistos todos conseguem ver. O cego e o caolho apalpam-se porque acreditam sonhar, quando na realidade imposta percebe-se mesmo apenas ao tatear. Como classificou um Nobel de Economia1 de 2017, basta conduzir um Nudge para que o empurrãozinho do acaso possa parecer desinteressado ou até um milagre! Porém, e entretanto rindo, oposição e situação sempre teatralizam adversários e solidários, nos cumprimentos e afagos dentre todas aquelas suas reformas. Estas garantidas no futuro, no presente e ainda no passado. Direito adquirido que, de um e outro, será sempre removido.

Nestas viagens e estadias pelo sul do Brasil, muito se vê deste teatro ilustre, mas pouco muda do original. Observa-se um tipo de evolução, transformada pela imigração doméstica que transporta para regiões mais ricas e mais seguras o infortúnio da violência, carregada por uma fuga interna de nacionais, que provocará também a transferência dos menos maus, como as estatísticas e as notícias já comprovam. São geralmente provenientes de regiões vizinhas, tradicionalmente com diferenças sociais mais graves. E estas intervenções também avançam por áreas ambientais, que não só as sociais e económicas. Foi o surpreendente depoimento de algum dos produtores de soja, que reconheceu sua interferência no meio ambiente, ao alterarem a geografia nos estados do Mato Grosso, Rondônia e Roraima, onde que abriram um corredor de caminho livre natural para as chuvas, ventos e tempestades frequentes e recorrentes.

Outro depoimento ali é o de enfermeiros e corretores imobiliários sobre a invasão migratória russa, para obterem partos tropicais de alta qualidade humana e que ainda dão direito ao passaporte e cidadania brasileira. Isso também causa uma inflação de demanda nos arrendamentos, mas não só destes estrangeiros. Os imigrantes estaduais em fuga da violência e desemprego também ocorrem. Por tratar-se de uma cultura europeia até recente nesta região sul-americana, há não mais que dois séculos, tem esta parte obviamente alguma relação genética com o sucesso económico europeu mais recente. Entretanto, faz parte de um todo que é indissociável e, por si só, não corrige outros problemas maiores, como até a grande incidência xenófoba, que não só o futebol, política também demonstram.

Uma análise mais cuidadosa poderá dar mais sentido a essas reações, que apenas a comparação entre salários e preços já dirá muito: os primeiros em Cruzeiros Reais2 e os segundos em dólar ou euros, convertidos. Não há poder de compra que justifique, nem resolva tais variações, discrepâncias e o livre arbítrio económico.

Por fim, e mais curiosamente será eles estarem em disputa política atualmente, às vistas das desinformadas atuais gerações e seus contemporâneos esquecidos, ou coniventes, pais e tios. Estes que desconstruíram toda uma feliz e exitosa estabilidade económica de há 30 anos atrás, mas que hoje reergueu-se inflacionária e desigual, agravando e relembrando-os dos traumas e sofrimentos outrora vencidos. Juntam-se oposição e situação outra vez naquele famoso teatro, para desfazer o que já foram coligados em combater, tentando populisticamente corrigir o mesmo que já souberam como destruir. Ou seja, sem tais receitas técnicas, típica dos incompetentes, é de se esperar que muito vai piorar, antes de melhorar. É assim que reza a história...

Curiosamente, como estes casos já se viu na crise imobiliária russa do século passado; e vê-se agora outra vez em algumas crises turísticas europeias e com os mesmos personagens étnicos. O palco muda, as plateias e geografias também, mas o enredo classificado modernamente como narrativa cobra um preço de bilhete deveras encarecido.

Notas:

1 Richard Thaler. 2uma das antigas moedas, das várias dos anos 90.