Olhamos o mundo uma vez, na infância.
O resto é memória.1

(Louise Glück)

Há um momento na pintura de Gabriela Machado que resiste à resolução, uma forma de suspender o tempo o suficiente para que seja sentido antes que seu significado se endureça. O que nos move é como a prática pictórica disciplinada da artista se torna inseparável do seu exercício político de viver. Insistir hoje na simplicidade, na fragilidade e no encantamento sem ironia já é uma forma de resistência. Talvez seja isso que nos atraia, de maneira tão íntima, ao seu trabalho - sustentar a atenção, permitindo que o brilho persista no cotidiano.

A segunda exposição da artista na galeria, Ainda bem, atravessei as nuvens reúne obras recentes produzidas entre 2025 e 2026. Desdobrando-se em formatos grandes e pequenos, o que marca uma mudança em direção a uma linguagem mais abertamente figurativa. É a primeira vez que a artista trabalha a figuração em grande escala. Pintar coisas reconhecíveis sempre fez parte de seus exercícios diários nas pequenas pinturas, iniciadas em 2016 como uma rotina quase obsessiva, uma maneira, como ela mesma diz, de “não perder a mão”. Essa prática funciona como um diário, um arquivo íntimo e histórico.

A artista se move em um universo cromático intenso. Cores neon, camadas de brilho, vestígios de glitter e jogos de transparência permitem que o que veio antes permaneça visível e que o que está por vir fique em suspenso.

Decorações de Natal, pequenos fios de luz, reflexos captados rapidamente em poças d’água, conchas e o universo cirsence. Coisas, momentos, memórias em que a luz e a matéria são simplesmente sentidas, quando o lado lúdico e brincante da percepção é ativado e o olhar se torna mais poroso.

Ainda bem, atravessei as nuvens, título emprestado de uma das pinturas que retrata um leão de circo, nomeia antes um limiar do que um tema propriamente dito. Tendo crescido em uma fazenda em Bananal, no estado de São Paulo — onde as próprias paredes eram pintadas e se tornaram algumas das primeiras imagens com as quais teve contato —, a artista recorda uma coincidência de sua infância rural. No mês de julho, a chegada do circo era um acontecimento. Quase ao mesmo tempo, os ciganos atravessavam a vila e ambos ocupavam a praça simultaneamente. Para uma criança, o mundo tornava-se subitamente, extraordinariamente, rico, brevemente reorganizado pelo movimento, pela cor e pelas presenças desconhecidas.

Embora ela não se lembre com precisão dos animais do circo, essa memória tornou-se um convite para pesquisar imagens pictóricas e históricas de circos, muitas vezes trabalhando a partir de fotografias como parte de seu processo de pintura. Esses momentos de encantamento, fascinantes mas também reais, insistem em sua capacidade de sustentar o presente. Eles a fazem retornar a uma primeira leitura do mundo, quando a imagem ainda não havia se separado do afeto. A artista ensaia esses estados inicialmente em tinta acrílica, antes de finalizá-los em óleo. “Eu preciso saber onde parar”, diz ela. Saber quando parar torna-se parte da temporalidade do gesto, o instante em que o brilho deixa de ser excesso e se torna presença.

Aqui, a imagem não pede apenas para ser vista, mas para ser encontrada. Roland Barthes descreveu o punctum na fotografia como o detalhe que fere o espectador. Nas pinturas da artista, esse ferimento não é um detalhe, mas um momento sustentado pela luz, um processo em vez de um ponto, uma sensação que nos mantém no estado suspenso da infância, antes que o mundo se transforme em explicação.

Em um sentido psicanalítico, o que se sustenta aqui não é a cena em si, mas o afeto que a atravessa, algo que é carregado, retomado e continuamente refeito entre ver e sentir.

Esta exposição traz à mente um verso do forte poema Outro nascimento, da iraniana Forugh Farrokhzad: “Sinto a primeira vibração da luz.”2 Aqui, essa vibração não é apenas ótica, mas corporal. Está no braço que pinta, na camada que se deposita na superfície que ao mesmo tempo retém e perde luminosidade.

Quando nos encontramos em seu ateliê no Rio de Janeiro, disciplina e repetição entraram na conversa, assim como a cidade que habitamos, o mar, a praia, o surfe e a forma como a atenção se aguça enquanto o cansaço convive com uma sensibilidade ampliada para as pequenas coisas. Seu trabalho fala de nossos modos de ver, de pequenos acontecimentos, que repousam na memória e reaparecem discretamente nos encontros do dia a dia.

O que essas obras sustentam, em última instância, não é a infância como tema, mas como condição. Um compromisso com o jogo, o brilho, a fragilidade e a atenção como formas de permanecer no mundo. Em um tempo organizado pela velocidade e por um excesso de imagens, sua pintura propõe outra temporalidade: a do gesto, da camada e da luz que insiste em perdurar.

(Texto de Amanda Abi Khalil)

Notas

1 Louise Glück, “Nostos”, em Meadowlands (Hopewell, NJ: Ecco Press, 1996).
2 Forugh Farrokhzad, Outro nascimento, em Outro nascimento e outros poemas, trad. Sholeh Wolpé (Costa Mesa: Mazda Publishers, 2007).