É um fenômeno? É um espetáculo? É uma paixão? Tudo isso compõe a enigmática torcida do clube de futebol do Santa Cruz do Recife, Pernambuco.

Reparem na dimensão de uma multidão! Mas não é uma multidão qualquer. A multidão abraça um conceito polissêmico, que está em constante transformação; traz a massa, a energia da massa, uma energia revigorante de contágio com o intuito de algo ou propósito comum — uma efervescência coletiva. “O conceito de multidão é de uma multiplicidade singular, um universal concreto.

"O povo constitui um corpo social; a multidão não, porque a multidão é a carne da vida. Se por um lado opusermos multidão ao povo, devemos também contrastá-la com as massas e a plebe. Massas e plebe são palavras que têm sido frequentemente empregadas para nomear uma força social irracional e passiva, violenta e perigosa que, justamente por isto, é facilmente manipulável. Ao contrário, a multidão constitui um ator social ativo, uma multiplicidade que age". (Negri, 2004, p.17-18)”1 Para tanto, destaca-se o documentário realizado pela aluna Maria Eduarda em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), intitulado Recife do Santa2, no qual apresenta várias entrevistas de alguns torcedores apaixonados pelo Santa Cruz e pela sua fiel torcida.

De tudo o que já foi vivenciado, a multidão tricolor, regida pelo vermelho, branco e preto, arrasta multidões. Talvez, o segredo para este show de torcida, esteja na construção social da história da origem do próprio Santa Cruz. Sem sede, mas cheios de vontade, onze jogadores da periferia do Recife iniciaram, na Rua da Mangueira, no Pátio de Santa Cruz, em frente à Igreja, no bairro da Boa Vista, no dia 03 de fevereiro de 1914, o time da torcida mais apaixonada do Nordeste - quiçá do Brasil, deu o pontapé inicial de sua história. Ou seja, o Santa Cruz foi criado numa proposta de inclusão social. Na época o futebol era voltado para as elites; o Santa surgiu para mostrar que o futebol é de todos e para todos: do rico, é do pobre, do negro, e do branco.

E foi com um negro, Teófilo Batista, “o Lacraia” (a maioria dos jogadores tem apelidos no Brasil), que o clube iniciou sua jornada exuberante, contrariando o racismo da época. Em 1943, o jornal Diário de Pernambuco destacou: “O Santa Cruz pertence às multidões. Independentes de classe ou de posição social. Ele teve sua época de fastígio. Sobreveio uma tremenda crise, mas parece que tudo voltará a ser como antes.” Então, o Santa Cruz já evidenciava sua fenomenal torcida no tempo das rádios. No site oficial do Santa Cruz, você encontra a história do clube, que é a história da torcida também.

O fato de ser o único time da cidade (assim como do Norte e do Nordeste do Brasil) onde jogava um negro, no caso Teófilo de Carvalho, o Lacraia, atraiu a simpatia dos mais humildes. Para aumentar a popularidade, os meninos escolheram a campina do Derby, vasto terreno plano onde hoje está a praça do Derby, para realizar seus jogos. Lá não havia arquibancadas nem muros e todos podiam acompanhar os jogos do Santa Cruz. Nos campos da Avenida Malaquias e dos Aflitos era preciso pagar para entrar. Quando o Santa virou um jogo lendário contra o América, em 1917, e foi o primeiro time da região a derrotar um rival do Rio de Janeiro (3 x 2 no Botafogo, em 1919), sua torcida já era a maior nas palafitas e favelas onde viviam os ex-escravizados e seus descendentes.

Uma outra hipótese para “o segredo” dessa paixão está na construção do Estádio do Arruda no Recife. Conta-se que muitos torcedores trouxeram tijolos e ajudaram também na construção com seus serviços; foi feito em sua maioria pelos seus apreciadores. A mobilização foi intensa! “Para construir o Arruda, o Santa Cruz desencadeou uma das maiores mobilizações populares já realizadas por um clube de futebol no Brasil. Durante pelo menos quatro anos, a torcida arrecadou milhões de tijolos que o clube trocava por outros materiais que eram realmente utilizados na construção do estádio.

Todos os dias, chegavam à avenida Beberibe torcedores em carros com porta-malas carregados, carrinhos de mão empurrados por quilômetros ou até mesmo pessoas que desciam do ônibus com dois ou três tijolos nas mãos. Centenas de engenheiros civis, pedreiros, eletricistas, encanadores e mestres de obras doaram horas e mais horas de serviço para construir o Arruda nos horários de folga, à noite ou durante os finais de semana. Proprietários de picapes ou de caminhões colocaram seus veículos à disposição para recolher material doado em outros municípios3. Há de se considerar a existência de uma aura de pertencimento que fortalece a identidade, passada de geração em geração.

Para Bauman (2005), "a identidade se revela como invenção e não descoberta; é um esforço, um objetivo, uma construção. É algo inconcluso, precário. O refletir sobre se ter uma identidade não ocorre enquanto se acredita em um pertencimento, mas quando se pensa em uma atividade a ser continuamente realizada, desse modo, ele entende a identidade como mutação permanente.”4

Personagens diversos dão vida a esse movimento. A assistente social, Gisele Silva, aponta que começou a torcer desde criança por conta do seu tio, que era um torcedor fanático. Diz ela, que o segredo da torcida é a própria história do Santa, que é de força e de paixão, e que não vai ao Estádio por conta da violência. Já o estudante de Medicina, Felipe Tauk Santos, afirma que começou a torcer através de seus familiares, o avô paterno e o pai. Ele diz, que o segredo da torcida está no amor sem divisão pela torcida mais apaixonada do Brasil. Felipe, disse que vai a todos os jogos no Estádio, e uma das cenas vivenciadas com emoção foi o jogo na Arena das Dunas, localizada no Rio Grande do Norte, na cidade de Natal, quando o Santa Cruz passou da Série D para a Série C. Ele considera a torcida do Santa Cruz espetacular!

O estudante de administração, João Pontual, diz que começou a torcer através do pai e que tem uma paixão pelo Santa Cruz desde criança e que o jogo do Santa Cruz contra o time Betim de Minas Gerais no Arruda foi muito emocionante. Existem também torcedores icônicos que animam os jogos pela riqueza do seu imaginário, como Bacalhau, que pinta os dentes da cor do Santa Cruz, Chico da Cobra, que leva ao estádio do Arruda uma enorme cobra coral, vermelha, preta e branca, a mascote do referido time. Também existem o Mazinho da Buzina, Elvis Presley Tricolor, Super Santa e Jesus Tricolor, entre outros.

Como o futebol mexe com a cabeça do brasileiro, o Santa Cruz faz a diferença, em que a torcida vibra numa inexplicável sinergia com o seu time. Perdendo ou ganhando, a torcida está sempre à disposição para mostrar ao time que dias melhores virão. A torcida organizada Inferno Coral faz a sua nuance exibindo enormes bandeiras do seu time do coração durante as partidas de futebol. Cabe ressaltar que o Santa Cruz já foi destaque em vários jornais internacionais por possuir uma torcida que não desiste do seu time. “O Santa Cruz foi destaque no maior jornal da Inglaterra, o The Guardian, quando estava na Série D, por continuar atraindo um público impressionante ao Arruda. Nesta terça-feira (12), o clube coral voltou a aparecer no site da publicação inglesa, desta vez por meio da réplica do artigo do britânico James Young, que adotou o tricolor pernambucano como equipe desde a época em que o time amargava a quarta divisão.”5

São muitas as personalidades que têm o Santa como time do coração: Luiz Gonzaga o rei do baião, o compositor Capiba que criou o hino - O mais querido, o icônico Chico Science do movimento mangue beat, Jackson do Pandeiro, também eram tricolores. Os irmãos Valença, o maestro Nelson Ferreira, o pintor Bajado e a pintora Tereza Costa Rego também confirmavam o amor pelo Santinha. Também o icônico poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto foi jogador juvenil do Santa Cruz em 1935. Os cantores André Rio e Nando Cordel, o maestro Spok, o compositor Getúlio Cavalcanti e a criança criadora de conteúdo viral do Santa Cruz, Arthur Ricardo que traz no peito o coração vermelho, branco e preto, o Maestro Forró, Canibal da banda Devotos, o Velho Xaveco do Pastoril profano, entre outros, como as mulheres do movimento Coralinas6 que mostram a força feminina existente no Santa Cruz. E para abençoar este time, o Santa Cruz teve como privilégio de ter como torcedor o líder Dom Hélder Pessoa Câmara que foi arcebispo emérito de Olinda e Recife em 1964.

Recentemente foi aprovado o Protocolo Violeta7 que protege as mulheres nos estádios e arenas esportivas do Recife, garantindo mais segurança às torcedoras. O zelador Rudimar, que mora no bairro de Águas Compridas, zona norte do Recife, afirma que é um torcedor raiz. Começou a torcer vendo outros torcedores da região e que o Santinha é pura paixão. Ele vai ao Estádio do Arruda quando pode e é um torcedor de luta e de fé pelo Santa Cruz. O pesquisador e professor de história, George Pereira é sócio do citado clube, e diretor da torcida: Portão 10 - Avante Santa Cruz. Tornou-se torcedor através do pai, que tinha um vizinho com uma bicicleta personalizada do Santa Cruz nos anos 1970, com a qual ficou maravilhado com as cores do referido clube. Ele recorda que, “no primeiro jogo do Santa Cruz que meu pai me levou, no Arruda, em 2005, Santa Cruz x Grêmio, lembro do sentimento ao entrar no estádio e ver aquela multidão coral, colorida, fazendo a festa".

Ainda afirma o professor, "Nesse momento senti o coletivo pulsando, a força de um povo humilde que via ali sua identidade sendo representada em campo. Ali eu soube que escolhi e fui escolhido para amar o Santa Cruz.” O professor comenta que o Santa Cruz foi fundado por meninos de pés descalços, e que “a Cobra Coral, mascote do Santa, é um animal pequeno, que rasteja no chão, aparentemente simples e discreto, mas cuja picada é fatal. Pode representar a força e o veneno adormecido das massas, por vezes explodido e expressado em fervor e delírio, como no frevo.”

Ele vai ao Estádio com seu rádio de pilha, e que vivenciou os jogos na série D, quando mesmo no ‘fundo do poço’, a torcida não parava de acompanhar e cantar para incentivar o time. As viradas fantásticas, o time vencendo gigantes do Sudeste em momentos frágeis, como quando ganhamos do Fluminense em 2019. A multidão coral que acompanha a troça “Minha Cobra” na segunda-feira do carnaval de Olinda. Algo que especialmente me toca é o povo do interior. No jogo Central x Santa Cruz em Caruaru em 2025, ouvi relatos de diversos senhores de idade que saíram de seus povoados do sertão e do agreste para acompanhar seu time do coração.” Para ele, o Santa Cruz é o povo! O mais querido das multidões!

Por tudo isso, o maior movimento popular cultural de Pernambuco é o querido do povo! Viva o tricolor, viva os torcedores e as torcedoras do Santa Cruz! Viva a história do Santa Cruz!

Notas

1 Revista Multidisciplinar do Nordeste Mineiro.
2 Recife do Santa - Documentário.
3 Histórias de Amor Coral.
4 Análise discursiva da identidade de torcedores do Santa Cruz Futebol Clube em suas posições-sujeito.
5 Santa Cruz volta ser destaque no The Guardian.
6 Movimento Coralinas.
7 Protocolo Violeta é regulamentado no Recife.