Viver em Maringá foi uma das experiências mais singelas e, ao mesmo tempo, mais marcantes da minha vida. Eu cheguei à cidade em um momento estranho da própria história mundial em plena pandemia, quando o mundo parecia ter desacelerado à força, e as ruas estavam vazias de passos, mas cheias de incertezas. Ainda assim, foi ali, no coração do Paraná, que encontrei uma calma que eu nem sabia que precisava.
Maringá é uma cidade diferente. Moderna, planejada, bonita de um jeito natural, como se tivesse sido desenhada para ser um refúgio em meio ao caos. Quem a vê de cima entende rápido: ruas largas, muitas árvores, praças bem cuidadas e um verde que se espalha por todos os lados. Mas o que as fotos não mostram é a sensação de leveza que ela transmite. Mesmo durante a pandemia, quando o medo parecia pairar no ar, Maringá conseguia ser acolhedora.
Lembro do primeiro dia em que saí para caminhar máscara no rosto, álcool na mochila e o coração apertado. As ruas estavam silenciosas, quase melancólicas. Mas havia algo bonito naquele silêncio. O som dos passarinhos, o vento entre as árvores e o sol atravessando as folhas me faziam esquecer, por alguns minutos, a gravidade do momento. Maringá parecia respirar junto com a gente, como se dissesse: “vai passar”.
A Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Glória sempre me impressionou por fotos. Mesmo fechada para celebrações durante parte daquele período, bastava passar por perto para sentir uma espécie de energia boa. O formato cônico, que se destaca no horizonte, dava um ar de esperança como um lembrete de fé em tempos difíceis. Eu passava por ali quase todos os dias, nem sempre para rezar, mas para olhar, respirar e lembrar que ainda existia beleza no mundo.
Com o comércio fechado e as restrições em vigor, a cidade parecia ter voltado para dentro de si. As avenidas antes cheias de movimento se tornaram trilhas para poucos pedestres e ciclistas. Foi nesse cenário calmo que comecei a perceber o quanto Maringá é viva mesmo quando está quieta. O verde não parava de crescer, as flores continuavam nascendo, e os ipês, sempre pontuais, coloriam a cidade como se nada tivesse acontecido.
Vivi em um pequeno apartamento próximo ao centro,na zona 07 e minha companhia diária era a vista das copas das árvores que quase tocavam minha janela. À noite, o barulho dos grilos substituía o som dos carros, e eu me pegava pensando como seria viver ali em tempos normais. Mesmo com tudo parado, Maringá conseguia transmitir uma sensação de segurança e ordem.
Durante a pandemia, as pessoas começaram a valorizar coisas simples e em Maringá, isso era fácil. Caminhar pelas ruas arborizadas era, muitas vezes, o passeio do dia. A Praça Napoleão Moreira da Silva, o Parque do Ingá e o Parque do Japão se tornaram lugares de respiro. Mesmo com limitações, bastava ver o verde, ouvir os sons da natureza e sentir o vento leve para lembrar que estávamos vivos.
O Parque do Ingá, em especial, me marcou muito. Andar por suas trilhas, com aquele lago tranquilo e os macaquinhos pulando nas árvores, era como fugir um pouco da realidade. Lá dentro, parecia que o tempo parava. Era um alívio poder tirar a máscara por alguns segundos e respirar fundo, sentindo o cheiro da mata e da terra molhada depois da chuva.
Com o passar das semanas quando os restaurantes começaram a reabrir, mesmo com restrições, pude conhecer um pouco da gastronomia local. As padarias com pães quentinhos de manhã, os cafés com cheiro de bolo caseiro e os pequenos restaurantes que servem comida simples, mas feita com capricho. Nada de luxo, apenas o prazer de comer bem. E talvez tenha sido isso que me conquistou de vez: a simplicidade de uma cidade que oferece muito sem precisar se exibir.
Maringá também tem um espírito jovem. A presença das universidades traz movimento e ideias novas, mesmo em tempos de distanciamento. Conheci estudantes que, mesmo estudando online, se organizaram para ajudar comunidades carentes ou arrecadar doações. Essa energia solidária e criativa parecia correr pelas veias da cidade.
Outra coisa que me chamou atenção foi a limpeza e o cuidado com os espaços públicos. Mesmo durante a pandemia, os jardins estavam podados, as ruas varridas e as praças bem cuidadas. Havia um senso de zelo coletivo. Era como se cada morador fizesse questão de manter Maringá bonita, mesmo quando o mundo lá fora parecia feio.
Os meses foram passando, e com eles, a esperança foi voltando. Ver o movimento aumentar aos poucos, as lojas abrindo as portas novamente, os sorrisos (ainda escondidos atrás das máscaras) aparecendo nos olhos das pessoas… tudo isso foi emocionante. Maringá soube se reconstruir com calma, com responsabilidade e, principalmente, com humanidade.
Hoje, quando lembro daquele período, não penso apenas nas restrições ou no medo. Penso no pôr do sol dourando as árvores da Avenida Cerro Azul, no cheiro de chuva que anunciava o fim da tarde, nas conversas com desconhecidos que se tornaram amigos. Penso no quanto aquela cidade me fez bem num momento em que tudo parecia desabar.
Viver em Maringá durante a pandemia foi, de certo modo, um aprendizado. Aprendi que o silêncio também pode ser bonito, que o tempo desacelerado nos ensina a observar e que há cidades que nos abraçam mesmo sem nos conhecer. Maringá me ensinou sobre esperança. Sobre o poder do simples. Sobre como a vida continua, mesmo quando o mundo parece ter parado.
Talvez eu não tenha ficado tempo suficiente para conhecer tudo, mas vivi o bastante para sentir. E sentir, em tempos difíceis, foi o que manteve todos nós de pé.
Se eu pudesse resumir Maringá em uma frase, diria que é uma cidade que cuida das pessoas, da natureza e dos sentimentos. E é por isso que, mesmo tendo ido embora, uma parte de mim ainda caminha por aquelas ruas calmas, sob a sombra das árvores que nunca deixaram de florescer.















