Viver na Serra Gaúcha é como acordar dentro de um cartão-postal. É difícil colocar em palavras a sensação de abrir a janela e ver as montanhas cobertas por uma névoa leve, o cheiro de terra úmida e o canto dos pássaros que se misturam ao som distante de um trem turístico (carinhosamente apelidado de maria fumaça) cruzando os vales. Morei em Bento Gonçalves por alguns anos, e posso dizer sem exagero: cada dia por lá tem gosto de vinho e alma de tradição.
Bento não é apenas a capital brasileira do vinho é um lugar onde o tempo parece andar devagar, onde as pessoas ainda se cumprimentam na rua e onde o trabalho nas vinícolas faz parte da rotina de muitas famílias há gerações. É uma cidade que carrega o sotaque italiano em cada esquina e o orgulho de quem aprendeu com os antepassados a transformar uvas em histórias.
As vinícolas são, sem dúvida, o coração pulsante da região. Caminhar pelo Vale dos Vinhedos é uma experiência quase espiritual. Há um silêncio que conforta, quebrado apenas pelo barulho suave das folhas sendo tocadas pelo vento. Lá, pequenas propriedades dividem espaço com grandes nomes, como Miolo, Casa Valduga, Aurora, Salton e Pizzato. Cada uma tem seu charme, sua história e, principalmente, seu jeito de receber o visitante.
Lembro bem da primeira vez que visitei uma vinícola local para uma reportagem na época para o Grupo RSCOM, era época de colheita, e o ar estava impregnado com o perfume doce das uvas maduras. Fui recebido com um sorriso e uma taça de espumante gelado. O enólogo me contou sobre o processo de produção e sobre como o terroir da Serra, com suas colinas e clima úmido, dá ao vinho brasileiro uma identidade única. Enquanto ele falava, eu observava os barris de carvalho alinhados e percebi que ali o vinho não era apenas uma bebida, mas uma forma de expressar amor à terra.
Provei rótulos que jamais esqueci, vinhos tintos encorpados, brancos refrescantes e espumantes que pareciam dançar no paladar. Cada gole era uma história. E foi nesse contato com os produtores que percebi a grandeza da simplicidade: famílias inteiras trabalhando juntas, colhendo uvas, prensando-as com cuidado e transformando aquele fruto em algo que carrega memória, afeto e dedicação.
O que mais me encantava, porém, era o modo como o vinho estava presente em tudo. Nos restaurantes, nos encontros entre amigos, nas festas da vindima e até nas conversas de bar. Em Bento, o vinho é quase um personagem: ele está sempre por perto, celebrando a vida com quem o saboreia.
Durante o Festival da Vindima, por exemplo, a cidade se transforma. As ruas ganham cores, música e alegria. Turistas e moradores se misturam para celebrar a colheita das uvas, dançar tarantela e, claro, degustar o que há de melhor na produção local. Eu mesmo participei algumas vezes, ajudando na colheita e sentindo o chão de terra batida sob os pés enquanto as cestas se enchiam de cachos brilhantes. Ao final do dia, todos se reuniam para o almoço típico: polenta, galeto, massa e vinho à vontade. Era impossível não se emocionar com a energia daquele momento.
Além das vinícolas, a Serra Gaúcha tem um ritmo próprio. No inverno, o frio convida ao aconchego das pousadas com lareira, enquanto o vapor do vinho quente se mistura ao cheiro de pinhão e fondue. No verão, as paisagens ficam ainda mais vivas, e os parreirais formam um tapete verde que se estende por quilômetros. É uma região que se reinventa a cada estação, mas sem perder sua essência.
E se há algo que aprendi morando em Bento Gonçalves, é que o vinho é só o começo. A gastronomia é outro espetáculo à parte. As cantinas italianas servem massas caseiras e galetos com aquele sabor que só as receitas de família conseguem ter. Já as padarias e cafés escondem delícias que combinam perfeitamente com o clima da serra. E o café colonial… ah, esse é praticamente um ritual! Uma mesa farta, com bolos, queijos, cucas e geleias artesanais que fazem qualquer um esquecer da dieta.
Outra lembrança que guardo com carinho é o passeio de Maria Fumaça, que liga Bento Gonçalves a Carlos Barbosa e Garibaldi. É uma viagem curta, mas cheia de encanto. Durante o trajeto, o trem é animado por músicos, dançarinos e degustações de vinho e suco de uva. Ver os turistas encantados com o cenário que eu via todos os dias era uma sensação curiosa uma mistura de orgulho e nostalgia.
Também há os roteiros menos conhecidos, mas igualmente fascinantes. O Caminhos de Pedra, por exemplo, é um mergulho na história da imigração italiana. Ali, as casas antigas de pedra, os ateliês e os pequenos restaurantes parecem parados no tempo. É impossível não se sentir transportado para o século XIX, quando os primeiros imigrantes chegaram trazendo seus costumes e sonhos.
Mas Bento vai além do turismo. É uma cidade viva, com gente acolhedora e um senso de comunidade muito forte. Trabalhar lá era entender que as relações profissionais e pessoais se misturam com respeito e amizade. Há um orgulho genuíno em quem nasceu ou escolheu viver na Serra Gaúcha — um sentimento de pertencimento difícil de explicar, mas fácil de sentir. As festas de bairro, as feiras locais, os encontros em volta da mesa tudo reforça a ideia de que viver bem é, antes de tudo, valorizar o simples.
Mesmo depois de ter deixado a cidade, Bento Gonçalves continua comigo. Basta abrir uma garrafa de vinho nacional ou simplesmente tomar um suco de uva para que as lembranças voltem: o pôr do sol dourando os vinhedos, o cheiro de lenha queimando nas noites frias, o som das risadas nas mesas de jantar. Viver na Serra Gaúcha é viver em um lugar onde cada dia é uma celebração simples, mas sincera.
E quando alguém me pergunta por que gosto tanto de lá, respondo sem pensar: porque a Serra ensina que o tempo certo das coisas não se mede no relógio, mas na colheita. E que, assim como o vinho, a vida precisa de paciência, cuidado e boas companhias para amadurecer.
Quem passa por Bento Gonçalves seja por alguns dias ou por uma vida inteira descobre que o verdadeiro luxo não está nas taças de cristal, mas no gesto de erguer uma taça e brindar àquilo que realmente importa: as pessoas, as histórias e o prazer de viver com alma.















