O futuro já foi cancelado.
(Mark Fisher)
Há uma melancolia peculiar que atravessa nossa cultura visual contemporânea. Enquanto a tecnologia avança em velocidade vertiginosa, nosso imaginário parece preso a visões futuristas concebidas décadas atrás. O paradoxo é evidente: 68% dos millennials acreditam que o futuro será pior que o presente (Pew Research, 2023), enquanto consomem avidamente representações de um amanhã que nunca se concretizou. Eis o território do retro-futurismo – movimento estético que revisita e recontextualiza as utopias tecnológicas do século XX, expondo tanto sua ingenuidade quanto sua potência crítica.
A história do retro-futurismo começa com um sonho. No pós-guerra dos anos 1950-60, o mundo ocidental vivia uma euforia tecnológica sem precedentes. As feiras mundiais exibiam cidades do futuro com automação total, a corrida espacial prometia colonizar outros planetas, e séries como Os Jetsons (1962) imaginavam um 2062 repleto de robôs domésticos e carros voadores – ignorando por completo questões como desigualdade e colapso ambiental.
Esta visão otimista começou a ruir nos anos 1970-80. As crises do petróleo, a Guerra Fria e os primeiros sinais de catástrofe ecológica introduziram uma desconfiança no próprio conceito de progresso. Não por coincidência, Blade Runner (1982) apresentou um futuro poluído, corporativo e desumanizado – exatamente o oposto das utopias technicolor das décadas anteriores.
O retro-futurismo surge deste luto coletivo por futuros que nos foram prometidos e depois negados, afirma Simon Reynolds em seu estudo sobre a cultura retrô. A internet substituiu os carros voadores, mas trouxe vigilância ubíqua e isolamento social. Os robôs existem, mas servem para automatizar trabalhos precários em vez de nos libertar para o lazer. As viagens espaciais são restritas às elites.
O campo artístico absorveu esta tensão e a transformou em poética. Quatro exemplos ilustram abordagens distintas do retro-futurismo contemporâneo:
Simon Stålenhag (Suécia, 1984–) captura esta dissonância em sua série The Electric State. Suas pinturas digitais retratam paisagens suecas dos anos 1980 invadidas por robôs abandonados e infraestruturas tecnológicas em decomposição. A paleta nostálgica contrasta com a desolação pós-tecnológica. "Meu trabalho documenta o que acontece quando a tecnologia prometida vira lixo", declarou o artista em entrevista à Wired (2019).
O trabalho de Stålenhag convida à reflexão sobre a obsolescência programada não apenas de gadgets, mas de futuros inteiros. Suas obras evocam o conceito de "hauntology" proposto por Jacques Derrida e aprimorada por Mark Fisher – uma espécie de "assombração temporal" onde fantasmas do futuro invadem o presente (Fisher, 2014, p. 18).
Já na Argentina, Guadalupe Maradei (1979–) aborda o tema através de suas esculturas Futuros Obsoletos (2018), utilizando mídias físicas descartadas – discos de vinil, fitas VHS, tubos de televisores – para construir naves espaciais e robôs que parecem saídos de Jornada nas Estrelas (1966). "O que acontece quando o futuro vira vintage?", pergunta a artista ao transformar tecnologias obsoletas em artefatos arqueológicos de um amanhã que nunca chegou.
No Brasil, o cenário ganha contornos próprios com Virgilio Neto (1985–). Seu Retrofuturismo Tropical confronta a narrativa tecno-colonialista ao incorporar elementos da cultura popular brasileira em instalações com eletrônicos dos anos 1980 e 1990.
O coletivo norte-americano Neon Retro Future produz instalações que recriam ambientes inspirados nos centros comerciais dos anos 1980, como a Mall of the Future (2022), com sua estética Miami Vice e lojas de realidade virtual. A diferença crucial é que estas obras não celebram, mas criticam a promessa capitalista de um futuro hiper-comercial: "Construímos estes espaços como dioramas de um futuro que o capitalismo prometeu e falhou em entregar", explica Sarah Chen, fundadora do coletivo (Frieze, 2022).
O retro-futurismo navega além da simples saudade. Svetlana Boym distingue entre "nostalgia restaurativa" (que busca reconstruir o passado) e "nostalgia reflexiva" (que usa o passado para questionar o presente) (Boym, 2001, p. 41). É nesta segunda categoria que o retro-futurismo revela seu potencial crítico.
Exemplos desta distinção aparecem na cultura pop. Stranger Things glorifica os anos 1980 sem questioná-los, enquanto o universo de Fallout usa a estética retro-futurista dos anos 1950 para criticar o otimismo atômico e o militarismo daquela era. Um celebra o passado; o outro o utiliza como alerta.
Também a arquitetura retro-futurista expressa esta crítica. Os pavilhões abandonados de feiras mundiais, como a Expo 58 em Bruxelas, tornaram-se "ruínas da modernidade" – monumentos a promessas não cumpridas. Como observa Fredric Jameson, "as ruínas do futuro evocam um modo específico de nostalgia: o desejo não pelo passado em si, mas pelo desejo que uma geração anterior tinha pelo futuro" (Jameson, 2005, p. 281).
No entanto, mesmo a poética retrô não está isenta de contradições. A primeira delas é a fetichização problemática de épocas marcadas por opressões sistemicas. Os anos 1950, tão celebrados pelo retro-futurismo americano, foram também o auge da segregação racial e da repressão sexual. Como observa Bell Hooks, "a nostalgia raramente beneficia quem foi marginalizado nas épocas romantizadas" (Hooks, 1992, p. 177).
Outro problema é a cooptação mercadológica. A Sony relançando o PlayStation Classic ou a Nintendo reciclando seus consoles antigos transformam a nostalgia crítica em mercadoria. "A nostalgia virou indústria", alerta Simon Reynolds (2011, p. 188). O capitalismo demonstra notável habilidade em absorver até mesmo as críticas direcionadas a ele.
Por fim, há a questão da colonialidade. O retro-futurismo mainstream é predominantemente branco, ocidental e masculino. Ignora futuros imaginados por culturas africanas, indígenas ou asiáticas. Como questiona a pesquisadora brasileira Giselle Beiguelman, "de quem são os futuros que recordamos? Por que o modernismo brasileiro, com seu próprio futurismo tropical, raramente integra o cânone retro-futurista global?" (Beiguelman, 2020, p. 45).
O valor do retro-futurismo está menos em sua estética e mais em sua função diagnóstica. Como um sintoma cultural, ele revela nossa crise de imaginação política – a incapacidade de conceber futuros genuinamente novos. Como provoca Donna Haraway, "se queremos sobreviver, precisamos parar de colecionar futuros velhos e começar a inventar novos" (Haraway, 2016, p. 101).
O desafio para artistas, especialmente brasileiros e latino-americanos, é reinventar o retro-futurismo a partir de perspectivas decoloniais. Como seriam futuros imaginados não a partir do modernismo europeu, mas da cosmovisão Guarani? Como o retro-futurismo brasileiro poderia incorporar as utopias tropicalistas ou o legado arquitetônico de Lina Bo Bardi, em vez de simplesmente importar nostalgia do hemisfério norte?
O retro-futurismo nos lembra que o futuro não é destino, mas construção. Se hoje choramos por futuros perdidos, talvez seja hora de imaginar outros – menos ingênuos quanto ao progresso, mais atentos às diferenças e fundamentalmente plurais. Não se trata de abandonar o passado, mas de usá-lo como Guadalupe Maradei faz com suas esculturas: transformando a obsolescência em matéria-prima para novos possíveis. Afinal, como questiona Mark Fisher, "e se os únicos fantasmas que nos assombram forem aqueles de futuros que nunca tivemos coragem de criar?" (Fisher, 2014, p. 173).
Referências
Beiguelman, Giselle. Memória da Amnésia: Políticas do Esquecimento. São Paulo: SESC, 2020.
Boym, Svetlana. The Future of Nostalgia. Nova York: Basic Books, 2001.
Fisher, Mark. Ghosts of My Life: Writings on Depression, Hauntology and Lost Futures. Winchester: Zero Books, 2014.
Haraway, Donna. Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulucene. Durham: Duke University Press, 2016.
Hooks, bell. Black Looks: Race and Representation. Boston: South End Press, 1992.
Jameson, Fredric. Archaeologies of the Future: The Desire Called Utopia and Other Science Fictions. Londres: Verso, 2005.
Pew Research Center. The Future in Mind: American Perceptions of the Years Ahead. Washington: Pew Research Center, 2023.
Reynolds, Simon. Retromania: Pop Culture's Addiction to Its Own Past. Nova York: Faber and Faber, 2011.















