A Zipper Galeria apresenta Uma Contra-História do Brasil, nova individual de Camille Kachani. A série revisita criticamente a elaboração do que se convencionou chamar de “história oficial” do país, propondo outra leitura a partir das margens — povos originários, africanos escravizados e fluxos europeus empobrecidos, cujas experiências foram em grande parte silenciadas no discurso oficial.
Inspirado no procedimento de Michel Onfray ao formular uma “contra-história” da filosofia, Kachani desloca o foco do cânone para protagonistas invisibilizados. “Nestes trabalhos, tento recontar, por meio de alusões e símbolos, a história do País pelos olhos dos povos que, embora tenham formado ou construído o Brasil, não participaram da elaboração da História Brasileira”, afirma o artista. Em seu vocabulário visual, materiais naturais e artefatos culturais se entrelaçam, reabrindo disputas sobre quem nomeia, mapeia e narra o território.
A mostra reúne 12 trabalhos inéditos entre esculturas e objetos em técnica mista. Em Pindoretama (2025), título que evoca a nomeação tupi do território, o artista transforma o “solo” em tecido ou bandeira, abordando uma disputa simbólica. Contra-história do Brasil (2024) aproxima a diversidade genética de povos e a natureza de um país marcado por ciclos de predação. Em Pau-Brasil (2024), um tronco-escultura condensa a ambivalência entre mercadoria e mito de origem, fazendo emergir narrativas autóctones. Desmapa I e Desmapa II (2025) propõem cartografias sem reconhecibilidade, enquanto Mundus Hodiernus I/II (2025) inverte mapas-múndi para sugerir a repetição global de conquista e apagamento. Já Brazilapopolo (2025), “os povos do Brasil”, em esperanto, elabora, por meio de uma trama de plantas e sinais, a constituição mestiça do país.
Com humor ácido e precisão formal, Kachani desarma a suposta neutralidade dos objetos. Ao “fazer brotar” galhos, raízes e inscrições de ferramentas, livros e móveis, suas esculturas encenam a fricção entre natureza e cultura, tradição e modernidade, apagamento e lembrança. Em vez de ilustrar a história, o conjunto a reconfigura por imagens — “uma arqueologia crítica do presente”, nas palavras do próprio artista.













![Colectivo Acciones de Arte, No+ [Não mais] (detalhe), 1983. Cortesia da MASP](/attachments/dc40768cdeeb3efde6f401458c89b480eccc9b3b/store/fill/330/330/78e1c0c0e74593dec16749d28f958badc81211c6cbebdeb8b40e4dd2be4a/Colectivo-Acciones-de-Arte-No-plus-Nao-mais-detalhe-1983-Cortesia-da-MASP.jpg)


