A preparação mental é tão importante quanto o físico — e o celular pode ser seu maior inimigo.

O celular se tornou parte da rotina diária, mas seu uso excessivo antes de treinos e competições pode interferir na concentração, aumentar a ansiedade e prejudicar a performance esportiva. Este artigo explica como o excesso de telas afeta o cérebro, a postura e o preparo mental, e oferece estratégias para equilibrar tecnologia e rendimento, mostrando que a atenção ao corpo e à mente é fundamental para atletas de todas as modalidades.

Nos dias atuais, é praticamente impossível imaginar um atleta sem o celular nas mãos minutos antes de treinos ou competições. Muitos recorrem ao aparelho para ouvir música, revisar táticas, enviar mensagens ou simplesmente passar o tempo. À primeira vista, isso parece inofensivo, mas o impacto desse hábito sobre a performance esportiva é muito maior do que se imagina. O uso excessivo do celular pode reduzir a concentração, atrasar os reflexos, prejudicar o preparo mental e até interferir na postura, comprometendo o desempenho físico e cognitivo.

O cérebro humano é extremamente sensível a estímulos digitais. Cada notificação, mensagem ou vídeo no celular provoca uma pequena liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de recompensa. Esse mecanismo, repetido diversas vezes, cria uma espécie de “ciclo de expectativa” que mantém o sistema nervoso em alerta constante. Para o atleta, isso significa que, no momento crucial de concentração antes de um treino ou partida, a mente ainda pode estar presa aos estímulos digitais, dificultando a transição para o foco necessário.

Um dos impactos mais significativos desse comportamento é a redução da atenção sustentada. A exposição constante a telas condiciona o cérebro a alternar rapidamente entre tarefas e informações, um padrão chamado “multitasking digital”. Embora isso pareça produtivo, na prática diminui a capacidade de manter o foco em uma única atividade por tempo prolongado. Durante uma competição, a habilidade de atenção contínua é essencial: ler jogadas, antecipar movimentos dos adversários e tomar decisões rápidas dependem de um cérebro presente e centrado.

O uso do celular antes do exercício também aumenta o risco de ansiedade e estresse. Redes sociais e aplicativos de mensagens podem trazer notícias negativas, cobranças e comparações, provocando um aumento na produção de cortisol, o hormônio do estresse. Níveis elevados de cortisol prejudicam o desempenho esportivo, interferem na coordenação motora e podem afetar a tomada de decisões rápidas. Além disso, o excesso de tensão pré-jogo torna o atleta mais vulnerável a lesões e compromete a capacidade de manter o controle emocional durante a competição.

Outro fator crítico é a fadiga mental. Assim como o corpo, o cérebro também se cansa com estímulos excessivos. O excesso de informações antes de competir pode reduzir a clareza mental, dificultando a execução de movimentos complexos e estratégicos. Em esportes que exigem reação imediata, como vôlei, futebol ou artes marciais, esse efeito é particularmente prejudicial. Cada minuto de distração prévia é um minuto perdido em performance efetiva.

O impacto físico do uso do celular não deve ser subestimado. A postura adotada ao segurar o aparelho, com a cabeça inclinada para frente e ombros curvados, pode gerar tensão muscular cervical e nos ombros. Para atletas, isso significa uma biomecânica prejudicada, maior risco de dores, desconforto e até interferência nos movimentos durante treinos ou competições. Além disso, o tempo gasto sentado ou parado olhando para a tela atrasa a ativação muscular que precede a atividade física, tornando o corpo menos preparado para esforço intenso.

A luz azul emitida pelas telas é outro vilão, pois inibe a produção de melatonina, hormônio responsável pela regulação do sono. Para atletas, o sono é essencial não apenas para recuperação muscular, mas também para consolidação da memória motora e equilíbrio hormonal. A falta de sono profundo prejudica a força, a velocidade, os reflexos e a resistência, além de aumentar o risco de lesões.

É importante reforçar que o celular não é o inimigo absoluto. Ele pode ser usado de forma estratégica: para ouvir playlists motivacionais, revisar estratégias de jogo ou registrar informações importantes. O problema é o uso descontrolado, especialmente nos momentos imediatamente anteriores à atividade física. Criar rituais pré-treino que ajudem a focar a mente e preparar o corpo é essencial. Isso pode incluir alongamentos, exercícios de respiração, visualização mental, conversa com a equipe ou aquecimento físico — ações que promovem concentração, reduz ansiedade e aumentam o rendimento.

Muitos treinadores de equipes profissionais já adotam períodos específicos “offline” antes das partidas, incentivando atletas a se desconectarem dos dispositivos e ficaram no preparo físico e mental. Essa prática reduz a ansiedade, melhora o foco coletivo e aumenta a performance. Para atletas amadores, estabelecer limites simples, como não usar o celular 30 a 60 minutos antes do treino, já é suficiente para notar melhorias significativas.

A mensagem central é que cada detalhe conta. Preparar-se para o desempenho esportivo não começa no aquecimento, mas nos minutos que antecedem a atividade. O uso consciente da tecnologia, a atenção ao corpo e a preparação mental são tão essenciais quanto força, resistência e técnica. Em competições, o adversário mais perigoso nem sempre está do outro lado da quadra ou do campo; às vezes, ele está nas mãos do próprio atleta, na forma de notificações e distrações digitais.

No fim, a lição é clara: seu celular pode esperar, mas sua performance não. Conectar-se consigo mesmo, focar no presente e respeitar o período pré-atividade é a estratégia mais poderosa para maximizar resultados, reduzir erros e manter saúde física e mental. Cada escolha conta, e o controle do uso das telas antes do treino é um investimento direto no seu rendimento e longevidade esportiva.