Gosto da sensação histórico-cultural da cidade que tem vocação operária! Sim! São Paulo nasceu, se desenvolveu, se agigantou e segue com este espírito de operária, do trabalho e organização das formigas em grandes trilhas e do seu ordenamento num formigueiro. Indiferente as heranças conflituosas e viciadas da ‘convivência’ entre jesuítas e indígenas; bandeirantes e indígenas e escravos; cafeicultores e escravos; fazendeiros e imigrantes, industriais e imigrantes e migrantes... a sua grande teia é o operário, a grande massa de trabalhadores de todas as partes que foi se avolumando na cidade com o passar dos anos e absurdamente a partir do início do século XX. Esta vocação operária, juntamente com o seu gigantismo, lhe confere um certo ar de igualdade, apesar das diferenças.

Esta sensação fica ainda mais latente à medida que circulamos pela cidade e vemos por todos os seus cantos resquícios das suas vilas operárias. Aqueles quarteirões formados por simples casas geminadas uma à outra com sala e cozinha no térreo e dois dormitórios no segundo piso. Em alguns pontos vemos suas variáveis um pouco mais ampla, são os quarteirões formados de blocos de duas, quatro ou seis casas geminadas tendo um pequeno terreno livre entre os blocos, mas a lógica arquitetônica de vila operária segue. Às vezes me pego imaginando que no passado o grande quarteirão geminado com casas mais exíguas seria dos operários e os quarteirões formados com a combinação de apenas duas casas geminadas mais espaçosas seriam dos chefes, supervisores, gerentes etc.

Independentemente se as vilas foram construídas pelas antigas fábricas que existiam espalhadas pela cidade, acredito que o padrão de construção operária foi também replicado por todas as partes com algumas variações, desde sobrados e até mesmo quando não estão no seu clássico formato geminado uma com as outras. É sempre um deleite nos depararmos com elas por aí! Em alguns trechos da cidade, ou algumas isoladamente, se apresentam bem conservadas, mas a grande maioria não o são, parecem relegadas, meio que abandonadas, outras transfiguradas. Os seus proprietários e moradores parecem não entender que a sua beleza arquitetônica está em seu conjunto, sua coletividade, e não em sua individualidade. Mais que isto, até parecem relegar o seu passado!

Em paralelo a esta ascendência, vemos a cidade na sua transformação perene e frenética de demolição das antigas construções, das antigas vilas, para dar lugar a um novo edifício, um novo condomínio. A cada novo edifício ou complexo de edifícios, um quarteirão inteiro (ou parte dele) de casas geminadas desaparece. Talvez seja um processo semelhante ao ocorrido com o antigo centro que teve seu pouco passado arquitetônico colonial dizimado pelas ricas construções de edifícios neoclássicos no início do século XX, ou ao ocorrido com a Avenida Paulista em meados do mesmo século, onde as antigas mansões dos cafeicultores, industriais e empresários foram substituídas por edifícios, em sua maioria empresariais.

... Que aqui onde agora está / Esse edifício alto / Era uma casa velha, um palacete abandonado...

(Saudosa Maloca – Adoniran Barbosa)

O fato é que o processo segue! Cada vez mais ao redor de toda a cidade! No que antes era apenas o entorno do centro da metrópole, em bairros localizados próximos ou a quilômetros do seu antigo umbigo surgem novos centros e, suas antigas vilas desapareceram, desaparecem ou desaparecerão em breve. Bairros como Perdizes, Pompeia, Santana, Brooklin, Campo Belo, Granja Julieta etc. foram e seguem sendo transformados, ora por novos quarteirões de edifícios residenciais, ora por novos quarteirões de instalações corporativas, escritórios, unidades comerciais...

O curioso (até divertido) é que, muitas vezes, a lógica operária da cidade segue viva, pois no lugar das antigas vilas horizontais o que vemos surgir são novas vilas verticais. Num ‘novo’ padrão de construção vemos surgir infindáveis novas vilas operárias verticais, algumas que servirão aos novos ‘operários’ da cidade, outras a seus chefes, gerentes, diretores... Quase tudo se apresenta num padrão arquitetônico semelhante, como num molde de fábrica. Em pontos distantes, mesmo próximos, da cidade vemos muitas vezes edifícios iguais. Se estivéssemos num programa de TV até imaginaríamos se tratar de um cenário replicado ou transportado.

Edificações mais simples com oito, dez, doze apartamentos por andar; as medianas com quatro apartamentos por andar e as mais sofisticadas com dois ou um apartamento por andar. Não importa! Elas irão parecer semelhantes como numa grande vila operária. Afinal é a vocação da cidade! Ah! E a cor atual é outro capítulo...

A cor cinza que antes era predominantemente utilizada no revestimento das torres de escritórios, mais recentemente se alastrou em praticamente todos os novos edifícios, que passaram a incorporar quase que um padrão único de variáveis de cinza em seu revestimento externo, não importando se é um empresarial ou residencial. Busco desesperadamente por uma cor diferente pelas fachadas da cidade! Rezo para que algum arquiteto ou construtora se inspire no vermelho das colunas do MASP (Museu de Arte de São Paulo) ou no colorido do edifício do Instituto Tomie Ohtake e tenham a ousadia de sair das intermináveis variações do cinza... cinza claro, cinza mais claro, cinza, cinza escuro, cinza mais escuro...

Abrigar centenas, milhares, milhões de pessoas que dormem, acordam, que vivem correndo atrás do seu sonho pessoal, profissional, de trabalho, de conquistas é o espírito da cidade. Certa vez, num debate sobre o limite de velocidade nas marginais Tietê e Pinheiros, ouvi de um paulistano “São Paulo tem pressa!”. A frase foi dita com uma certa arrogância e ar de superioridade para se referir que a cidade é rica, pois tem pressa em seguir produzindo riqueza. Na realidade talvez ele não entendesse que a cidade é rica em consequência do seu espírito incansável de trabalhador, seja você o faxineiro, o gerente ou o empresário, todos possuem um espírito voltado para a produção, um “espírito operário” e, este espírito parece aproximar a todos, parece refletir a grande alma da cidade...

Quem sabe aí resida um dos principais encantos da cidade: a sensação de que todos são iguais caminhando pelas ruas, no ônibus, no metrô, no trem, nos shoppings centers, nas torres empresariais... uma enorme massa trabalhadora, apesar das diferenças!

...Crescem flores de concreto
Céu aberto ninguém vê
Em Brasília é veraneio
No Rio é banho de mar
O país todo de férias
Aqui é só trabalhar
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito...

(São São Paulo – Tom Zé)