Existem muitas técnicas de modelagem manual que aprendemos ao trabalhar com cerâmica de alta temperatura, e uma delas é o acordelado, também conhecido como técnica de cordas.
Recentemente desenvolvi um trabalho — que ainda está em andamento — de uma escultura de uma cabeça de onça toda criada com essa técnica, que não costumo usar sempre. O resultado até agora me surpreendeu muito e o processo trouxe muitas reflexões e perguntas que me fizeram pesquisar mais sobre o assunto e hoje trago aqui para compartilhar com vocês.
Para quem não trabalha com cerâmica, explico melhor de maneira simples: essa técnica consiste basicamente em fazer “cobrinhas”, ou cordas de barro, e colocá-las uma sobre a outra, formando assim as paredes da peça. É como construir camada por camada, cobrinha por cobrinha, criando altura, volume e forma. Um processo em etapas que permite desenvolver peças grandes sem a necessidade de ferramentas como o torno elétrico, por exemplo — o que torna tudo mais acessível porque se trabalha apenas com as mãos.
Ancestralidade
A técnica do cordelado está entre as formas mais antigas de construção em cerâmica de que se tem registro. Muito antes de existirem tornos ou qualquer tipo de mecanização, era com as mãos e com técnicas como essa que diferentes povos moldavam seus utensílios do dia a dia.
Os registros arqueológicos mostram que civilizações antigas, em várias partes do mundo, já utilizavam esse método para produzir potes, vasos e recipientes de armazenamento. Era uma solução possível, adaptável e profundamente conectada ao território — bastava ter argila, água e tempo.
E, apesar de estar presente em todo o mundo, aqui na América Latina essa técnica se desenvolveu de forma muito forte e ainda hoje permanece viva em diversas comunidades. No Brasil, um exemplo muito conhecido é o trabalho das paneleiras de Goiabeiras, no Espírito Santo.
As paneleiras produzem até hoje as tradicionais panelas de barro capixabas, utilizadas no preparo de pratos como a moqueca. Tenho certeza de que você já viu uma panela como essa por aí. O processo é totalmente manual e preserva técnicas transmitidas de geração em geração. A construção das peças envolve o uso do acordelado para formar as paredes das panelas, que depois são alisadas, moldadas e finalizadas com saberes muito específicos daquela comunidade.
Além das panelas, também são produzidos potes, travessas e outros utensílios domésticos, todos carregando não só uma função prática, mas também um valor cultural enorme. Esse conhecimento não foi formalizado em escolas — ele foi transmitido dentro das famílias, por meio da observação e da repetição.
Esse tipo de produção revela algo que me chama muita atenção: nosso corpo aprende. Existe uma memória que não está escrita, mas se mantém viva no gesto. A forma de enrolar o barro, a pressão aplicada com os dedos, o tempo de espera entre uma etapa e outra — tudo isso é aprendido fazendo, ao longo dos anos e com muita prática.
Mesmo hoje, com acesso a tantas ferramentas e tecnologias, essa técnica continua fazendo sentido. Ela não depende de equipamentos complexos, não exige estrutura sofisticada. É uma forma de produção que nasce do encontro entre a matéria e as nossas mãos.
Quando penso nisso, fico refletindo sobre como, ao trabalhar com acordelado hoje, ainda que em um contexto completamente diferente, há continuidade desses gestos. De alguma forma, estamos repetindo movimentos que atravessaram séculos e perpetuando essa forma de arte.
Processos
Agora, falando de maneira prática sobre essa técnica, apesar de parecer simples à primeira vista, o acordelado exige atenção a alguns pontos importantes para que a peça se desenvolva bem.
O primeiro deles é a consistência da argila. Ela não pode estar seca demais, nem mole demais. Precisa ter uma plasticidade equilibrada, que permita modelar as cordas com facilidade e, ao mesmo tempo, sustentar o peso das camadas que vão sendo adicionadas.
Outro ponto fundamental é a união entre as cordas. Não basta apenas empilhar. É necessário pressionar, unir e, depois, alisar essas junções para evitar pontos fracos. Quando essa etapa não é bem feita, aumentam as chances de rachaduras ou de a peça se abrir durante a secagem ou a queima.
A espessura das cordas também influencia bastante o resultado. Cordas muito grossas dificultam o controle do formato, enquanto cordas muito finas podem comprometer a estrutura. Encontrar esse equilíbrio faz parte do processo de aprendizado.
Além disso, é importante respeitar o tempo da peça. Como estamos construindo em altura, muitas vezes é necessário fazer pausas para que a base se firme antes de continuar. Quando esse tempo não é respeitado, o próprio peso do barro pode deformar a estrutura da sua peça.
Um aspecto interessante dessa técnica é a possibilidade de ajuste ao longo do processo. Diferentemente de outras formas de construção mais rígidas, aqui há espaço para corrigir, adaptar e até mudar o caminho enquanto a peça é construída. Isso traz uma liberdade maior para quem está trabalhando.
Foi algo que senti muito claramente durante a construção da escultura da onça. Como o processo é mais lento e dividido em etapas, há tempo para observar melhor, ajustar proporções e repensar algumas decisões. A peça vai tomando forma aos poucos, quase como se fosse revelada ao longo do caminho.
No fim das contas, o acordelado reúne características que fazem com que essa técnica continue a atravessar o tempo.
Ela pode ser utilizada por quem está começando, justamente por não exigir ferramentas complexas, e, ao mesmo tempo, permite um alto nível de exploração para quem já tem mais prática. Funciona para peças pequenas, objetos utilitários e também para trabalhos maiores.
Existe uma liberdade muito interessante nesse tipo de construção. Cada camada adicionada abre uma nova possibilidade de forma, de volume, de caminho.
Para quem nunca experimentou, é uma técnica muito acessível e, ao mesmo tempo, surpreendente. E, no meio de todo esse processo, há algo que permanece central desde o início: o prazer de trabalhar com as mãos e acompanhar a transformação da matéria, pouco a pouco.
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