Parafraseando a famosa canção do Dorival Caymmi:
“Você já foi à ‘Chapada Diamantina’, nêga?
Não? Então vá!”
Ao longo de 2025 nossos filhos fizeram uma reclamação/reivindicação, disseram “toda temporada de férias de final de ano ficamos em Salvador ou em algum lugar do Recôncavo Baiano ou do Litoral Norte ou Sul da Bahia, precisamos conhecer o interior da Bahia, precisamos ir até a Chapada Diamantina!”. Concluí que mesmo eu, cinquentão e baiano, ainda não conhecia a Chapada Diamantina. Um completo absurdo! A minha esposa já conhecia, pois na infância visitava junto com umas tias e primos. Decisão facilmente tomada! Partiu Chapada Diamantina no início de 2026!
Recordamos de um casal amigo que sempre está na Chapada Diamantina e entramos em contato para buscar referências de pousadas, passeios etc. Para nossa tristeza inicial e alegria posterior, eles estariam retornando para Salvador no mesmo dia que chegaríamos na Chapada, mas resolveram estender a sua permanência por mais dois dias em uma das cidades que visitaríamos para nos encontrar. Isto aumenta as nossas expectativas! A seguir um pouco do que conseguimos fazer em uma semana.
A Chapada é enorme (entre 32 mil e 41 mil km²)! Praticamente o mesmo tamanho da Suíça! O Parque Nacional abrange aproximadamente 1.520 km²! Mais de 360 cachoeiras catalogadas!
Opções avaliadas, planejamento feito, resolvemos ir para Lençóis primeiro e na sequência para o Vale do Capão. Mais tarde, alteramos a ordem e fomos primeiro para o Vale do Capão.
Como o Morro do Pai Inácio fica a caminho do Vale do Capão, por sugestão da minha esposa, já paramos na ida e subimos uma trilha relativamente fácil e curta para termos a vista de lá de cima. O Morro do Pai Inácio é o principal cartão-postal da Chapada Diamantina. Deste ponto também avistamos os famosos morros do Camelo e Três Irmãos.
O Vale do Capão (distrito de Caeté-Açu) pertence ao município de Palmeiras e fica localizado a cerca de 490 km de Salvador. É um belo vilarejo onde convivem as pessoas nativas e as alternativas. Os alternativos são aquelas pessoas de toda parte do mundo que adotaram o Vale do Capão como sua moradia e estilo de vida.
Nas palavras do atendente do Parque Natural Municipal do Riachinho quando perguntamos sobre uma pintura na parede do quiosque da entrada do parque: “Nós os nativos, devemos muito aos alternativos. Eles ajudaram a desenvolver o Capão e a nos organizarmos em cooperativas e associações”. Linda declaração! A pintura?
Caminhando pelo vilarejo do Vale do Capão nos deparamos com algumas casas pintadas. Fui me dando conta de que se tratava do mesmo artista em função da tonalidade em pastel comum entre as pinturas, dos traços dos desenhos e dos temas retratados, que eram sempre sobre a rotina ou história do povo do Capão. Seu nome? Salomão Zalcbergas! O atendente da Cachoeira do Riachinho nos explica sobre o artista e a importância dele para o vale.
Na primeira noite saímos para jantar e esquecemos de comprar o nosso café da manhã do dia seguinte. Na volta o mercadinho já estava fechado. Lembrei que no caminho da casa que estávamos tinha alguma placa informando que serviam Café da Manhã.
Era uma casa simples, com um camping ao lado e uma porta antiga de geladeira escrita “Temos Café da Manhã”. Pergunto ao jovem em frente à casa a que horas abririam no dia seguinte. Ele chama uma outra jovem, que me responde que abririam entre 9:00 e 10:00. Agradeço e respondo que não nos atenderia, pois tínhamos marcado uma trilha cedo no dia seguinte. Então, ela me pergunta “que horas você precisa?”. Digo que às 7:00 e ela devolve “Pode vir!”.
Ainda incrédulos se realmente teríamos o café da manhã, chegamos pontualmente às sete horas do dia seguinte e para nossa feliz surpresa, os dois jovens já estavam à frente da casa nos aguardando. Fomos gentilmente recepcionados pela jovem, que informou que tinha feito um brownie de chocolate com banana.
Olhamos o cardápio e escolhemos suco de laranja (algo raro no vilarejo), um café preto e tapioca com queijo. Em uma mesa simples em frente da casa, entre dois cachorros que brincavam, um gato que nos rondava, alguns mosquitos e o barulho de um potente ronco que vinha de uma das barracas do quintal-camping, tomamos nosso desjejum.
No final, meio atentos à conversa entre os dois jovens, ouvimos o diálogo: o rapaz “- Que horas você chegou?”; ela responde “- Acho que uma”; “- Acho que não! Cheguei neste horário e você ainda não estava”; “- Então devo ter chegado umas duas!”. Eles tinham ido a uma rave na noite anterior! Concluímos que realmente foi melhor dispensar o brownie de chocolate com banana!
Devidamente alimentados, encontramos o nosso guia e partimos para a famosa Cachoeira da Fumaça. Em função da queda entre 340 e 380 metros e dependendo da ação do vento, a água frequentemente se transforma em névoa antes de tocar o solo, criando o efeito de "fumaça".
O guia nos informa que a trilha de aproximadamente 6 km até a cachoeira é considerada de nível médio a difícil. Por mais que tenha passado algumas informações para os primeiros 2 km de subida, não imaginei que fosse durar tanto. Parece uma grande escada feita de pedras irregulares... pedras grandes, médias, pequenas, areia... quase todo o tempo olhando para o chão para ter certeza de onde pisar.
Uma vez ultrapassada esta subida, chegamos à caminhada por um platô até a cachoeira. A vista realmente é fantástica! Ver a cachoeira se transformando em “fumaça” é uma experiência única!
A volta, como sempre ocorre em todas as voltas, parece mais rápida, apesar de termos que enfrentar novamente a enorme “escada” irregular de pedras na descida, o que nos faz redobrar a atenção.
Uma vez saciados pela beleza da cachoeira e da paisagem, exaustos e com fome, retornamos para a Vila do Capão para almoçar. Lembramos das dicas dos nossos amigos e buscamos pelo restaurante Comida Caseira Dona Beli.
O restaurante serve um clássico PF (prato feito) de arroz, feijão, picadinho de legumes, salada, farofa e duas variações de proteínas à escolha (carne de sol e frango). Pedimos, obviamente, a carne de sol. Neste primeiro dia não perguntamos qual era o legume do PF e fomos surpreendidos por “maxixe”. Argh! Creio que eu e a torcida do Bahêa não sejamos muito fãs de maxixe...
A partir do segundo dia, passamos a perguntar qual era o legume do dia e não nos deparamos mais com o maxixe. Ufa! Na Chapada Diamantina eles costumam cortar os legumes em pedaços bem pequenos, talvez um hábito do preparo da palma (um tipo de cacto), de consumo comum em toda a região da Chapada e do sertão.
À noite fomos conhecer outra indicação dos nossos amigos, a Pizzaria Capão Grande, também na vila, ao lado da igrejinha da cidade, na Praça São Sebastião. A pizzaria é famosa por seu cardápio minimalista, sua simplicidade radical, oferecendo apenas dois sabores exclusivos (um salgado e outro doce).
A base é uma massa integral e fina, assada em forno a lenha. A salgada inclui molho de tomate caseiro, muçarela, cenoura ralada, azeitona verde. O grande toque fica com a Pimenta em Mel (famoso mel com pimenta artesanal produzido por eles). Não confunda com uma geleia de pimenta, pois sua ardência é bem superior e você descobre na primeira mordida.
Já o sabor doce inclui banana fatiada, queijo, canela em pó e castanhas picadas. Para arrematar estes sabores, nada melhor que se deliciar com o vinho Rio Sol disponível no cardápio minimalista. Vinho do nordeste produzido no Vale do São Francisco (Pernambuco).
Vale lembrar que também existem algumas produções de hidromel e vinhos na Chapada Diamantina, sendo a Vinícola UVVA, em Mucugê, a mais sofisticada e comentada atualmente.
Em uma outra noite e outra pizzaria (Pizza LAB Capão) também provamos o hidromel produzido no Vale do Capão, o Melvino (uma fermentação de mel, água, frutas e especiarias). A versão tradicional é muito saborosa!
O Vale do Capão nos proporciona deliciosos banhos de cachoeiras. Das que visitamos destaco a do Rio Preto, que inclui uma trilha de nível fácil por dentro da mata de aproximadamente 3 km; e Riachinho, de fácil acesso de carro através da estrada principal do vilarejo e uma pequena caminhada dentro do parque municipal, aquele do atendente que comentou sobre a importância dos “alternativos” para a região.
Ambas também possuem bons e profundos poços para banhar-se, além das cachoeiras.
Após nossa pequena imersão no Vale do Capão partimos para Lençóis em busca de novos conhecimentos e emoções pela Chapada. Como já tínhamos feito diversas cachoeiras no Vale, resolvemos priorizar outras modalidades de passeio, escolhendo primeiramente a Gruta da Lapa Doce e a Fazenda Pratinha.
A gruta tem uma boa estrutura de atendimento ao visitante, que inclui um museu arqueológico e guias bem capacitados para fornecer explicações técnico-científicas sobre a gruta, além de se disponibilizarem para tirar boas fotos brincando com o efeito das luzes dentro da caverna.
Já a Fazenda Pratinha, apesar da incrível beleza natural da Gruta Azul, Gruta da Pratinha e do Rio Pratinha (de água e areia claríssimas), nos pareceu ocupada de uma forma muito ostensiva por bar, cadeiras, mesas, sombreiros, tirolesas e afins no entorno do Rio Pratinha, o que termina por ofuscar um pouco da deslumbrante beleza natural.
Resolvemos também visitar a cachoeira do Mucugezinho (Poço do Diabo), porém a ação predatória do homem também ali se sente com maior intensidade, com bar e tirolesa em suas margens.
Em nosso último dia em Lençóis apostamos em algo diferente e fomos visitar Marimbus, uma grande área alagadiça na região central da Chapada conhecida como o "Pantanal da Chapada" ou “Pantanal da Bahia”.
Formado por rios, lagoas interligadas e vegetação típica, é um ecossistema único, perfeito para passeios de barco a remo e contemplação da natureza, combinado com uma rápida passagem pela comunidade quilombola do Remanso.
Nosso guia, além de bom canoísta, era um excelente fotógrafo! Ah! Caso deseje, você também pode remar o barco junto ao canoísta-guia. Ao final do passeio de barco, fazemos uma pequena trilha para um banho na Cachoeira do Roncador.
Ao final temos duas opções de retorno: de barco pelo mesmo caminho ou por uma trilha entre a mata. Escolhemos a opção de retorno pela trilha, para termos outro ponto de vista.
Adoro conhecer lugares que se conectam de alguma forma com outros, seja por questões geográficas, históricas ou culturais. A região da Chapada Diamantina é a grande fonte de nascentes que afluem ao Rio Paraguaçu, maior rio genuinamente sob os limites geográficos da Bahia, nascendo na Chapada e desaguando na Baía de Todos os Santos.
Uma pulsante fonte de vida que se encontra e contribui com uma outra pulsante fonte de vida!
Suas águas fornecem abastecimento hídrico para diversas regiões, incluindo Feira de Santana e a região metropolitana de Salvador, através da Barragem de Pedra do Cavalo. A barragem possui um aproveitamento hidrelétrico de cerca de 160 MW, atendendo à demanda industrial e residencial do Recôncavo, abastecendo mais de 280 mil residências, sendo também crucial no controle de enchentes nas regiões de Cachoeira e São Félix (municípios do Recôncavo Baiano).
Quanto aos nossos amigos... Infelizmente não nos encontramos na Chapada! Nosso primogênito teve um problema com um voo para Salvador e tivemos que postergar em dois dias nossa ida para a Chapada, exatamente os dois dias em que encontraríamos nossos amigos.
Por isso tivemos que inverter a ordem dos lugares que nos instalaríamos, passando o Vale do Capão para primeiro. Opção que se tornou mais interessante para o retorno a Salvador, considerando que Lençóis está 75 km menos distante da capital.
Para compensar a frustração deste reencontro, combinamos um almoço na casa deles. Eles prepararam uma adaptação da comida francesa Coq au Vin (Galo ao Vinho), porém feita com galinha caipira da Chapada.
Presenteamos-lhes uma goiabada com licuri da “Doces D’Afra”, vinda diretamente de Campos de São João da Chapada Diamantina. Tradicional doceria de 60 anos, instalada num casarão de mais de 200 anos.
Os doces foram criados pela Dona Afra e atualmente o negócio é comandado por sua filha Dona Janete. O carro-chefe é o doce de leite e suas combinações de sabores incrivelmente equilibrados (com licuri, café, amendoim, chocolate, gengibre, pimenta...).
“Você já foi à ‘Chapada Diamantina’, nêga? Não? Então vá!”
Nós, com certeza, voltaremos! Há muito para se fazer e conhecer ainda na Chapada Diamantina!















