Olhar para brinquedos antigos é quase um esporte emocional de risco. Basta um bonequinho esquecido numa caixa ou uma miniatura empoeirada para aquele aperto bom no peito aparecer. A gente lembra da infância, do tempo em que a maior preocupação era não perder uma peça do brinquedo antes de guardar. Para quem cresceu brincando de Playmobil, esse efeito é ainda mais potente. É exatamente nesse território entre nostalgia, afeto e imaginação que nasceu o projeto iloveplaymo.
A responsável por essa viagem no tempo atende pelo nome de Maria Moysés, psicóloga de formação e colecionadora por paixão. A relação dela com os bonequinhos começou cedo, ainda na infância, quando brincava com os Playmobil do irmão. O que era apenas uma memória afetiva virou quase missão de vida quando, já adulta, Maria descobriu que a Estrela deixaria de fabricar os brinquedos no Brasil. A reação foi imediata e bem pouco racional — como toda boa paixão. “Comecei a comprar tudo que eu via”, conta. Sua coleção ultrapassa 1.000 bonecos, sem contar acessórios, animais e cenários. Um pequeno exército em miniatura.
A ideia de fotografar os Playmobil surgiu sem grandes pretensões, como quase tudo que dá certo na internet. Em outubro de 2010, Maria começou a levar alguns bonecos para a praia e improvisar cenas nas areias cariocas. Nada de estúdio, nada de produção mirabolante. Era só o brinquedo, o cenário e o olhar atento. Em 2011, o projeto ganhou nome e perfil no Instagram: iloveplaymo, que teve sua última atualização em 2020.
O crescimento na época foi rápido e orgânico. Hoje, o perfil reúne mais de 60 mil seguidores, mas, no seu auge, teve mais de 100 mil pessoas, todas dispostas a parar o scroll para observar cenas simples, delicadas e, muitas vezes, engraçadas. O curioso é que as fotos não passam por edições elaboradas. Maria usava apenas os filtros do próprio Instagram e levava cerca de meia hora para produzir cada imagem. Para dar conta da logística, ela contava com a ajuda da amiga Patrícia Teixeira, que era uma espécie de braço direito do projeto — ou melhor, assistente de produção em escala reduzida.
O reconhecimento não demorou a atravessar fronteiras. Além de matérias em jornais e revistas e convites para festivais de fotografia, Maria acabou chamando a atenção da própria Playmobil. Ao entrar em contato com a empresa, recebeu uma resposta inesperada: eles já conheciam o projeto, seguiam o perfil e adoravam as fotos. Algumas imagens, inclusive, foram publicadas nas redes oficiais da marca. Nada mal para alguém que começou fotografando bonequinhos na areia.
Datas comemorativas viraram um prato cheio para a criatividade. Dia dos Namorados, Natal, Páscoa — tudo virou desculpa para montar cenas que misturam humor, delicadeza e um certo encanto infantil. E a dedicação foi longe. Em viagens, Maria sempre levava alguns Playmobil na mala. Não importava o destino, se tinha um cenário bonito, tinha foto. Em uma dessas aventuras, no Forte de Copacabana, ela chegou a pular uma corrente para conseguir o enquadramento perfeito perto do mar. Pela arte, tudo.
A coleção também cresceu de forma colaborativa. Além das compras feitas em viagens, Maria frequentemente ganhava bonecos de amigos e familiares. Ela mantinha contato com outros colecionadores por meio do Fórum Playbrasilmobil, onde trocam informações, curiosidades e aquelas descobertas que só quem leva brinquedo a sério entende. É um universo paralelo onde adultos falam com naturalidade sobre capacetes, espadas, carrinhos e miniaturas — e ninguém acha estranho.
Em 2013, veio um dos pontos altos dessa história: Maria visitou a Alemanha e conheceu a chamada “cidade Playmobil”, onde ficam a fábrica, o parque temático e a parte administrativa da empresa. Um daqueles momentos em que a criança interior ganha o volante. No ano seguinte, quando a Playmobil completou 40 anos, Maria foi convidada a participar da exposição comemorativa em Speyer, na Alemanha. Sim, os bonequinhos que um dia ficaram guardados numa caixa agora estavam em exposição internacional.
Apesar de tudo isso, Maria fez questão de manter os pés no chão — ou na areia, dependendo da foto. Ela se definia como fotógrafa amadora e não teve interesse comercial no projeto. O iloveplaymo existiu como expressão artística e como um resgate da memória afetiva. E funcionou. Segundo ela, a maioria das mensagens que recebia vinha carregada de nostalgia: “Já tive esse”, “Brincava com esse quando era criança”, “Voltei à infância”. É esse retorno simbólico que deu sentido ao trabalho.
No fim das contas, o iloveplaymo não foi só sobre brinquedos. Foi sobre lembrar que brincar não tem prazo de validade. Sobre permitir que a imaginação sobreviva à vida adulta, mesmo que em escala reduzida. E, talvez, sobre aceitar que algumas paixões simplesmente não pedem permissão para existir — elas só existem.
Para revisitar as aventuras dessa trupe em miniatura, basta procurar iloveplaymo no Instagram e deixar a nostalgia fazer o resto do trabalho.
Referências
Instagram I Love Playmo @iloveplaymo.
Estrela beirou a falência, deu volta por cima e ainda é ícone dos brinquedos. Infomoney.
Lembra da Trol? Fabricante da Playmobil só sobreviveu enquanto dono estava vivo. Forbes.
Linha do tempo - Playmobil. Play Vender.
Colecionadora mineira de Playmobil tem fotos expostas na Alemanha. R7.
Psicóloga cria exposição fotográfica com bonecos. O Tempo.















