A prática de Antonio Malta Campos circula técnicas pictóricas que flutuam em tintas sobre telas, papéis e assemblages. Sua pincelada, por vezes incisiva, outras deslizantes, caminha também ao sutil e airoso, em um traço reconhecível que transita entre a figuração e a abstração. Para Malta, a pintura começa em um pequeno caderno, em esboços aquarelados que virão a se tornar telas tomadas pela cor e a forma. Sua pesquisa segue o caminho que Matisse descrevia como “construção por meio da cor”, é uma investigação plástica do lugar, a criação e ocupação do sensível. Sua abstração é sugestiva, insinua por meio de diferentes traços e formatos que existe um lugar de criação no desconforto visual das preciso?es geome?tricas e das distinc?o?es entre o abstrato e o figurativo. É nesse lugar que Malta habita e é habitado.
Seu universo poético é a expansão da operação pictórica e atinge o exímio manejo da profusão cromática. Suas composições revelam gradações ora sutis, ora hiperbólicas, flutuando em azuis, neons e tons terrosos, na criação de um universo ficcional a partir do contorno, linhas e texturas da pintura.
Sua multiplicidade poética fica ainda evidente se olharmos para outras produções que possuem influência expressionista na cor e no desenho, são pinturas que o próprio apelidou de “pinturas nervosas”. Essa denominação sublinha a natureza mais tensa, dinâmica e de forte impacto emocional dessas obras, onde a cor e a pincelada agem como veículos de uma expressividade mais crua e imediata, revelando a complexidade e o alcance da investigação artística do artista.
Malta convoca nosso olhar à interpretação da paisagem a partir de outros vieses, reverberando a partir da matéria, em que se notam matizes mais opalescentes e etéreos. A materialidade mais recente é sugestiva, diferente de outras fases como as cabeças e personagens, em que a figuração era mais pungente pelas cores saturadas e traços expressionistas.
Na mostra “Opalescente”, que reúne obras recentes e inéditas de Antonio Malta Campos, nos deparamos com um recorte curatorial de sua produção que emerge de cores, linhas, formas geométricas e construções abstracionais. Essa produção delineia caminhos em que a pintura apresenta paletas de cores mais abertas, alegres, por vezes em tons pastéis e amenos, sugerindo uma leveza e uma atmosfera mais serena, essas obras exploram a cor em sua capacidade de construir espaços e formas com suavidade. Na sobreposição cromática em camadas há certa luminescência perolada, derivada da opala, uma gema que reflete cores multifacetadas, emanando uma aparência leitosa e iridescente em acabamentos azulados, avermelhados e alaranjados que se alteram conforme a mudança do ângulo da luz - a fatura de Malta é opalescente.
O semiólogo Roland Barthes certa feita resumiu que “o contemporâneo é o intempestivo”, isto é, aquilo que atinge o tempo presente para fazê-lo pensar sobre si mesmo. Malta projeta em sua pintura uma articulação cromática profundamente intempestiva: sua composição opera sob uma perspectiva provocadora. Ao instaurar uma temporalidade que escapa ao imediato, suas cores e gestos desafiam o espírito da época, abrindo frestas para outros modos de ver e de habitar o presente.
A feitura pictórica de Malta é uma articulação cromática no campo bidimensional, demonstrando o gesto habilidoso de reinvenção na vivência do ateliê, do processo investigativo do empilhamento de cores e da pesquisa formal que evoca novos prismas de sentido de uma poética já reconhecida e fortalecida. Na mostra presenciamos a síntese de sua poética, um ensaio plástico que irrompe ao espaço expositivo e revela singulares vetores de sentido.
(Texto de Luana Rosiello e Mariane Beline)







![Claudia Alarcón & Silät, Hilulis ta llhaiematwek — Un coro de yicas [Um coro de yicas] (detalhe), 2024-25. Cortesia da MASP](/attachments/cef6c4e8e49f7349af629d08468c7b908db3a101/store/fill/330/330/2b20296d35fd8750c3f3a8b27867226c366eba8facc153d777ac9139f5f9/Claudia-Alarcon-e-Silat-Hilulis-ta-llhaiematwek-Un-coro-de-yicas-Um-coro-de-yicas-detalhe-2024.jpg)
![La Chola Poblete, No era um chico triste, era um HDP [Não era um garoto triste, era um FDP] (detalhe), 2025. Cortesia da MASP](/attachments/3e3663acd91222323ca0c64735accd005da56fd9/store/fill/330/330/a6659a31762eb6591922c72151897dd85a57921f3176fdbabd23c01e8841/La-Chola-Poblete-No-era-um-chico-triste-era-um-HDP-Nao-era-um-garoto-triste-era-um-FDP-detalhe.jpg)
![Sandra Gamarra, Recurso VII [Resource VII] (detalhe), 2019. Cortesia da MASP](/attachments/4bf294b76ad2b9f45384ab1921c751b2ec8a93ea/store/fill/330/330/b05353cd2d4e75531aa4a8d702bf11b5aa0793dd52c41e49338d6325e673/Sandra-Gamarra-Recurso-VII-Resource-VII-detalhe-2019-Cortesia-da-MASP.jpg)
