No futebol brasileiro, a emoção virou um momento de profunda ansiedade. O gol já não o ápice da jogada, é só uma parada momentânea. Cada olhar se volta para o juiz, seu fone, só a conexão com a revisão, frequentemente falha. A questão não é um tropeço casual ou uma falha pontual. A arbitragem do Brasil, lado a lado com o VAR, sofre um baque de confiança.

A tecnologia, aliada em tese, acentua incertezas sobre a falta de competência, a pressão e aquele amadorismo resistente. Não são só pontos no campeonato que importam, é a integridade do jogo, a qualidade do futebol brasileiro, constantemente em decadência.

Para captar o cenário, temos de ir além do clichê “errar é humano”. Os erros no Brasileirão rolam toda semana, e não são apenas lances complicados. Várias vezes, são equívocos graves em jogadas centrais ou questões meramente interpretativas.

A rodada 27 de 2025, provou isso de maneira clara: penalidades marcadas de forma equivocada contra o time do Grêmio, faltas claras não dadas e critérios que mudavam a cada jogo, principalmente em lances envolve o famoso “mão na bola ou bola na mão”.

Além disso, ficou claro o despreparo da arbitragem quando o jogador Marlon foi acusado pelo STJD por declarações, feitas de forma respeitosa, pedindo claramente a profissionalização dos árbitros brasileiros. Deu a entender que, mesmo diante dos erros, os árbitros são intocáveis, não podendo nem sequer receber críticas.

Não parece que haja regras definidas, e cada jogo é decidido de uma forma diferente. Isso deixa jogadores, treinadores e adeptos confusos e frustrados.

O maior problema, todavia, não está mais no campo, mas dentro da cabine do VAR. O sistema, que supostamente corrigiria erros graves, foi tomado por uma cultura de receio e omissão. No Brasil, os árbitros do VAR relutam em contradizer o colega em campo, mesmo quando deviam. O resultado? Toda essa tecnologia se torna, afinal, um simples teatro. Quem está na cabine, com inúmeras câmeras e ângulos, acaba confirmando o erro, ou mesmo gerando mais confusão. O problema, afinal, não é a ferramenta, mas a falta de ousadia e profissionalismo em utilizá-la da forma certa.

A comunicação sobre esses erros apenas piora a situação toda. A Comissão de Arbitragem (CA) da CBF age como se estivesse escondendo algo. Em vez de ser transparente, a CA se fecha e libera comunicados vazios. Outro aspecto é a questão de posicionamento. Não se vê, em momento algum, árbitros dando entrevistas para repórteres, como fazem os jogadores ou técnicos. Assumir erros, então!? É objeto raro.

Recusar divulgar os áudios, tipo do jogo entre São Paulo e Palmeiras, é bem indicativo. Enquanto alguns países e algumas ligas, utilizam de divulgação rápida dos áudios e, ainda por cima, os árbitros comunicam a decisão via sistema de som, não somente aos jogadores, mas a todos os torcedores, no Brasil ainda há uma espécie de receio em comunicar de forma clara o que está sendo analisado.

É importante ressaltar, também, um ganho que foi o replay do lance passar no telão dos estádios, fazendo com que todos revejam o lance. Porém, isso pode gerar ainda mais revolta, visto que cada ponto de vista é a vista de um ponto, ou seja, torcedores do time A podem achar uma coisa, enquanto torcedores do time B pensam outra, sobre o mesmo lance e, diante da decisão do juiz, o burburinho se cria, principalmente por conta da demora para a decisão de um lance.

Outro aspecto que ressalto é a diferença, gritante diga-se de passagem, entre as intervenções do VAR no futebol brasileiro e no futebol internacional. Enquanto no futebol internacional, como na Premier League (Inglaterra), Ligue 1(França) e LaLiga (Espanha), o VAR interfere somente em lances claros que não foi visto pelo árbitro, respeitando os lances interpretativos, dando espaço ao árbitro se assegurar de suas decisões, no Brasil o VAR interfere de forma acintosa, se envolvendo na decisão de lances meramente interpretativos, que cabem ao árbitro, em campo, ler a jogada e fazer sua marcação.

E isso tudo, a meu ver, só cria dúvidas, abre brechas pra "teorias da conspiração". Treinadores, presidentes, jogadores... todos soltam acusação pesada.

No fim das contas, é tudo por causa de um problema maior: o amadorismo. Na Europa, ser árbitro top é profissão de verdade, com salário bom, cobrando muito, com dedicação exclusiva. No Brasil, alguns juízes possuem uma profissão, como professor, policial, advogado, empresário, apitando por fora, como se fosse complementação de renda.

Isso acaba defasando e impedindo o futebol daqui de ir pra frente. Como que um árbitro vai entender as táticas modernas se ele divide a atenção com outra coisa? A preparação agora precisa estudar os times, conhecer os jogadores e ter apoio psicológico. Parece que o juiz brasileiro aparece, apita como sempre fez, e vai embora.

Faço uma ressalva aqui ao ex-árbitro, hoje presidente de arbitragem da FIFA, Pierluigi Collina, único árbitro da história a ser capa oficial de um jogo de futebol para videogame (PES 3 – 2003). Muitos jogadores afirmaram sobre sua maneira de arbitrar uma partida, com firmeza, seriedade e leveza. Segundo ele mesmo, havia sempre um tempo dedicado para estudar os times, maneira de jogo, táticas mais comuns e, ainda, estudar os principais jogadores, como jogavam, dribles, entre outros. Isso facilitava a boa condução da partida. A ponto de, na final da copa do mundo de 2002, ser cumprimentado pelos jogadores da Alemanha, que perderam a partida.

Voltando ao tema do Brasil. Um campeonato, onde a arbitragem domina os holofotes, desvaloriza-se. Investidores e patrocinadores hesitam, antes de se unir a esse cenário incerto. Os atletas, dedicando uma vida a treinar, veem o suor invalidado por decisões equivocadas. E o torcedor, a alma do esporte, transforma-se em descrente. Ele não celebra o gol imediatamente — ele espera. A fé se esvaiu. No meu ponto de vista, esse é o prejuízo maior: a perda da crença no jogo.

Mudar exige uma revolução, não meros reparos. Em primeiro lugar, profissionalizar a arbitragem de verdade, com salários adequados e punições reais às falhas. Segundo, completa transparência: liberar todos os áudios do VAR no mesmo dia do jogo, de forma automática, para que os diálogos sejam tão logo entendidos ou, ao menos, assimilados. Terceiro, estabelecer uma liga de arbitragem, independente da CBF, financiada pelos clubes, pondo fim aos conflitos de interesse, onde o papel da CBF seria de fiscalização e organização das equipes por partida, além do pagamento de honorários por bom desempenho. Por fim, buscar aprendizado em ligas internacionais e implementar tecnologias, como o impedimento automático, minimizando falhas. Até que essas alterações sejam tratadas com a devida seriedade, continuaremos aprisionados nessa realidade.